O que é o padrão TISS?
O padrão TISS é o conjunto de regras, estruturas de dados, códigos e requisitos de segurança da troca eletrônica de informações sobre o atendimento de beneficiários de planos de saúde. É obrigatório e definido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A Resolução Normativa (RN) 501/2022 estabelece o padrão e define suas finalidades: padronizar a verificação, a solicitação, a autorização, a cobrança, os demonstrativos de pagamento e os recursos de glosa, além de alimentar o acompanhamento da ANS sobre as operadoras [1].
Na prática, é o “idioma comum” do faturamento hospitalar: a conta só é processada pela operadora se chegar no formato, com os códigos e na versão que o padrão exige. Por isso, um erro de padrão vira lote rejeitado ou glosa antes mesmo de alguém olhar o conteúdo clínico da conta.
A RN 501/2022 determina que a troca seja eletrônica e obrigatoriamente na versão vigente (art. 7º) [1]. O padrão abrange as trocas entre operadora, prestador, contratante, beneficiário e ANS, mas não o pedido de reembolso feito pelo beneficiário à operadora [1].
Os cinco componentes e o que cada um define
O padrão TISS é organizado em cinco componentes, e cada um é atualizado e versionado de forma independente [2]. Por isso não existe “uma” versão do TISS: existe a combinação das versões vigentes dos cinco.
| Componente | O que define | Versão vigente (set/2026) [2] | Impacto no faturamento |
|---|---|---|---|
| Organizacional | As regras operacionais: o que é obrigatório, quem envia o quê, prazos de implantação, vedações | 202609 | Define o que a operadora pode e não pode exigir |
| Conteúdo e Estrutura | A arquitetura dos dados das guias, mensagens eletrônicas e plano de contingência | 202511 | Muda os campos e as validações do XML |
| Representação de Conceitos em Saúde (TUSS) | A Terminologia Unificada da Saúde Suplementar: procedimentos, materiais, medicamentos, diárias, mensagens de glosa | 202609 | Muda os códigos que entram na conta |
| Segurança e Privacidade | Os requisitos de sigilo, privacidade e confidencialidade dos dados | 202511 | Certificado digital, controle de acesso |
| Comunicação | Os meios e métodos de transmissão; adota a linguagem XML | 04.03.00 e 01.06.00 | Versão do esquema que o sistema precisa ler e gerar |
O componente que mais muda é o da terminologia. A versão de setembro de 2026 incluiu 21.234 termos na tabela 19 (materiais e OPME), 781 na tabela 20 (medicamentos), 2 na tabela 22 (procedimentos e eventos em saúde) e inativou 2 termos da tabela 22 [3]. Desde julho de 2026, a ANS mantém uma plataforma de consulta da TUSS, com download em Excel, CSV e JSON e acesso por API [5]. Os códigos e as tabelas estão detalhados no guia Tabela TUSS. O padrão é peça central do faturamento hospitalar e da interoperabilidade entre hospitais e operadoras.
O que é obrigatório no meio eletrônico?
Nem toda troca do padrão precisa ser eletrônica. O Componente Organizacional separa três grupos [3]:
| Situação | Processos | Consequência prática |
|---|---|---|
| Implantação eletrônica obrigatória | Cobrança de serviços; lote de anexos da autorização; comunicação de internação ou alta; demonstrativos de retorno (pagamento e análise de conta); recurso de glosa | O hospital precisa enviar e a operadora precisa receber e responder em XML, no padrão |
| Implantação eletrônica opcional | Verificação de elegibilidade; autorização de procedimentos (exceto o lote de anexos); envio e recebimento de documentos | Nenhum lado pode impor o meio eletrônico ao outro; se a operadora adotar, precisa seguir o padrão |
| Troca em papel, conforme contrato | Comprovante presencial; comprovante de atendimento da guia de tratamento odontológico | Vale o que o contrato prevê |
Para o hospital, o ponto principal é que o recurso de glosa e os demonstrativos estão no grupo obrigatório. Isso garante o retorno estruturado de cada guia, com o motivo de cada glosa codificado na tabela 38 da TUSS, e o envio do recurso pelo mesmo canal. O passo a passo está no guia Recurso de glosa.
O que a operadora não pode exigir
O Componente Organizacional traz vedações que protegem o prestador [3]:
- Alterar o padrão. A operadora não pode mudar o padrão TISS nem criar a sua própria versão.
- Pedir em papel o que já foi trocado eletronicamente. Se a mensagem foi assinada com certificado digital ICP-Brasil, a operadora não pode exigir o equivalente em papel. O certificado deve ser o e-CNPJ da instituição que transmite a mensagem (ou o e-CPF, quando o prestador atua como pessoa física).
- Exigir o CID nas guias TISS. Em decorrência de decisão judicial, o componente veda que a operadora exija, em quaisquer circunstâncias, o preenchimento da Classificação Internacional de Doenças (CID) nas guias TISS.
- Manter tabela própria depois do prazo. Vencido o prazo de implantação de um termo TUSS, a operadora não pode usar código próprio para o mesmo item.
Quando uma exigência fora do padrão aparece, o caminho é registrá-la e levá-la à negociação do contrato, que pela RN 503/2022 precisa prever as rotinas de faturamento e auditoria. Manter o TISS em dia também protege o hospital no contrato: as vedações que garantem o acesso às justificativas de glosa e o direito de contestar só se aplicam se o faturamento seguir o padrão TISS vigente (art. 5º, parágrafo único) [4]. O guia RN 503/2022: o que o contrato com a operadora precisa dizer detalha esse ponto.
Como o padrão TISS funciona no dia a dia
O padrão acompanha o atendimento do início ao fim. O fluxo abaixo mostra as principais trocas entre hospital e operadora [3]:
- Elegibilidade (opcional no meio eletrônico). O hospital confirma se o beneficiário está ativo e o que o plano cobre. Se a resposta for negativa, a operadora deve identificar o motivo (item 45). O checklist está no guia Verificação de elegibilidade.
- Solicitação e autorização. O hospital pede a autorização na guia correspondente (SP/SADT, solicitação de internação, prorrogação) e envia os anexos (OPME, quimioterapia, radioterapia). A operadora responde com a senha ou a negativa, e a resposta deve listar todos os itens pedidos, inclusive os não autorizados (item 46.3). Negar, condicionar ou adiar o atendimento alegando ausência de código TUSS ou de tabela própria é infração às regras da ANS (item 117).
- Comunicação de internação e alta (obrigatória). O hospital informa a internação e a alta.
- Cobrança em lote (obrigatória). As guias de cobrança (consulta, SP/SADT, resumo de internação, honorários) e o anexo de outras despesas são agrupados em lote e enviados em XML. A operadora deve oferecer webservice e portal para essa troca, e o prestador escolhe qual usar (itens 129 e 130). A operadora devolve um número de protocolo, que comprova o recebimento (o mesmo vale para o lote de anexos e para o recurso de glosa).
- Demonstrativos de retorno (obrigatórios). A operadora envia o demonstrativo de análise de conta, com a situação e as glosas de cada guia do lote, e o demonstrativo de pagamento. Como ler e conciliar os dois está no guia Demonstrativo de análise de conta e de pagamento.
- Recurso de glosa (obrigatório). O hospital contesta as glosas pela mensagem de recurso, recebe protocolo, pode consultar o status, e a operadora responde acatando, não acatando ou informando nova análise.
Cada guia tem regras próprias de preenchimento e de vínculo entre si. O detalhe está no guia Guias TISS, e os códigos de cada motivo de glosa, no guia Códigos de glosa TISS.
Como acompanhar as versões sem ter lotes rejeitados
Uma versão fora da aceita pela operadora devolve o lote inteiro (tabela 38, código 5028, versão do padrão inválida) [6], porque o arquivo gerado pelo sistema deixa de passar na validação. Cada termo TUSS incluído tem prazo de fim de implantação de, no mínimo, três meses após o início da vigência [3]. As operadoras costumam avisar a data a partir da qual passam a rejeitar arquivos de versões anteriores.
| Rotina | Frequência | Responsável |
|---|---|---|
| Conferir o quadro de versões vigentes na página do padrão TISS da ANS | Mensal e a cada comunicado da ANS | Coordenação de faturamento |
| Ler o histórico de alterações da nova versão e listar o que afeta o hospital (tabelas 19, 20, 22, 38) | A cada nova versão | Faturamento e TI |
| Confirmar com o fornecedor do sistema a data de atualização | A cada nova versão | TI |
| Atualizar a tabela de preços e o cadastro de itens com os códigos novos ou inativados | Antes do fim do prazo de implantação | Faturamento e suprimentos |
| Validar o XML antes do envio e acompanhar a taxa de rejeição de lotes | A cada lote | Faturamento |
| Registrar avisos das operadoras sobre a data de corte de versões antigas | Contínua | Faturamento |
As críticas de lote previstas na tabela 38 e como evitá-las estão no guia Lote XML TISS: erros de envio. A taxa de rejeição de lotes é um dos indicadores do ciclo de receita.
O que vemos na operação
Na Accrua, a validação do padrão TISS é tarefa dos agentes. Antes de cada transmissão, o XML é conferido contra a versão vigente de cada componente, contra a terminologia TUSS e contra o que o contrato daquela operadora define. A transmissão, o protocolo do lote e o acompanhamento de status também rodam de forma automática, porque têm regra definida.
O Accrua OS trabalha sobre o HIS/ERP que o hospital já usa, então nada é redigitado para caber no padrão. Quando uma operadora pede algo fora do padrão, o caso é registrado com a fonte e vai para uma pessoa, que decide como responder com base na norma descrita neste guia.
Acompanhamos também as atualizações da TUSS, em especial as tabelas de materiais, medicamentos e OPME. Quando uma versão nova muda códigos, conferimos o cadastro de itens do hospital antes que o primeiro lote volte criticado, e cada ajuste fica em trilha auditável.
Por onde começar
- Identifique as versões em uso no sistema do hospital e compare com o quadro de versões vigentes da ANS.
- Nomeie um responsável por acompanhar as publicações do padrão e os comunicados das operadoras.
- Meça a taxa de rejeição de lotes por operadora e por motivo, toda semana.
- Liste as exigências fora do padrão feitas por cada operadora e leve-as à negociação do contrato.
- Valide o XML antes do envio, com as regras da versão vigente.