Pular para o conteúdo
Guias · Faturamento

Demonstrativo de análise de conta e de pagamento: como ler e conciliar

Onde a operadora informa o que aceitou, glosou e pagou. Veja a diferença entre os dois demonstrativos de retorno do padrão TISS, o que conferir em cada um e como conciliar cada pagamento com a conta, guia a guia.

Por Publicado em 9 min de leitura

O que são os demonstrativos de retorno do padrão TISS?

Os demonstrativos de retorno são as mensagens em que a operadora responde ao hospital sobre a cobrança enviada: o que analisou, o que glosou e o que pagou. O padrão TISS (Troca de Informações na Saúde Suplementar), da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), prevê dois: o demonstrativo de análise de conta e o demonstrativo de pagamento [1].

Eles fazem parte dos processos de implantação eletrônica obrigatória, ao lado da cobrança, do recurso de glosa e da comunicação de internação ou alta [1]. A operadora não escolhe se envia: precisa enviar no padrão, em XML, quando o hospital solicita.

No ciclo do faturamento hospitalar, os demonstrativos fecham a etapa de acompanhamento e conciliação. É neles que o hospital descobre se a conta virou dinheiro, glosa ou pendência. O padrão completo está no guia Padrão TISS.

Análise de conta e pagamento: dois documentos, duas perguntas

Os dois demonstrativos respondem a perguntas diferentes, e a conciliação só funciona quando se usa cada um para a sua. O demonstrativo de análise de conta diz o que a operadora aceitou e glosou em cada guia. O demonstrativo de pagamento diz quanto foi pago, quando e com quais descontos.

Demonstrativo de análise de contaDemonstrativo de pagamento
Pergunta que respondeO que a operadora aceitou e glosou, e por quêQuanto foi pago, em que data e com quais retenções
Unidade de leituraLote (protocolo), guia e item [1]Pagamento, com os protocolos que ele quita [8]
Itens listadosTodas as guias do lote; nas analisadas, só os itens glosados; nas outras, a situação [1]Valores consolidados e débitos ou créditos [8]
Código que apareceMotivo da glosa, da tabela 38 da TUSS [2]Tipo de débito ou crédito, da tabela 27 da TUSS [3]
Uso principalSeparar glosas e montar o recursoBater com o extrato bancário e a nota fiscal

Há também demonstrativos ligados à guia de tratamento odontológico: o padrão diz que os códigos da TUSS trafegam nas guias odontológicas e nos demonstrativos decorrentes da análise de cobrança dessas guias [1]. Para o hospital, o que importa são os dois demonstrativos da tabela acima.

Como pedir o demonstrativo e quando ele chega?

O hospital pede o demonstrativo pelo número de protocolo do lote. Quando a operadora recebe um lote de cobrança, ela gera um protocolo que comprova o recebimento [1]. Depois, o hospital envia a mensagem de solicitação de demonstrativo de retorno com esse protocolo. A operadora responde com o demonstrativo ou informa que ele ainda não está disponível [1].

Na prática, isso cria uma regra simples de controle. Todo lote enviado precisa ter protocolo, e todo protocolo precisa ter demonstrativo. Lote sem protocolo é problema de envio, tratado no guia Lote XML TISS: erros de envio. Protocolo sem demonstrativo depois do prazo do contrato é pendência a cobrar.

Os itens do Componente Organizacional sobre lote e demonstrativos não fixam em quantos dias o demonstrativo deve chegar [1]. Esse prazo, assim como o de pagamento, sai do contrato. A ANS acompanha a demora pelo Painel de Indicadores de Glosa. O tempo médio de pagamento conta os dias entre o protocolo de cobrança e o último pagamento de cada guia fechada [6]. A ANS também mede as guias sem nenhum retorno, nem pagamento nem glosa, 30 dias após o protocolo [6].

Os valores que o hospital precisa ler

O demonstrativo traz os valores em camadas: por item, por guia e por protocolo. Em cada camada, a lógica é a mesma. Parte do que o hospital informou foi aceito para pagamento e parte foi glosada [8].

ValorO que representaO que conferir
InformadoO que o hospital cobrou na guiaSe bate com o lote enviado e com o espelho da conta
ProcessadoO que a operadora apurou ao processar a cobrança, pela tabela do contratoDiferença para o informado indica preço ou quantidade em discussão
LiberadoO que foi aprovado para pagamentoSe aparece depois no demonstrativo de pagamento e no banco
GlosadoO que foi recusado, com o código da tabela 38Se a soma de liberado e glosado fecha com o informado

Três leituras evitam os erros mais caros:

  • Item ausente não é item glosado. Nas guias já analisadas, o demonstrativo de análise de conta lista só os itens com glosa [1]. O que não aparece foi aceito.
  • Guia “em análise” não é guia paga. A guia sem análise concluída aparece com a situação, sem glosa [1]. Ainda não há o que recorrer, mas há prazo de pagamento correndo.
  • Glosa vem com código. O motivo de cada glosa é uma mensagem da tabela 38 da TUSS, como 1705 (valor apresentado a maior) ou 3209 (procedimento ou item em duplicidade) [2]. O significado de cada grupo está no guia Códigos de glosa TISS.

No demonstrativo de pagamento, o ponto de atenção são os débitos e créditos. A tabela 27 da TUSS codifica nove tipos: imposto de renda retido na fonte (IRRF), imposto sobre serviços (ISS), INSS, PIS, Cofins, CSLL, descontos financeiros, ajuste de pagamento anterior e determinação judicial [3]. Os seis primeiros são retenções tributárias. Os três últimos pedem explicação, porque reduzem o crédito sem passar pela análise da conta.

Como conciliar guia a guia?

Conciliar é comparar, para cada guia, quatro números: o faturado, o analisado, o pago e o creditado. A conciliação só pelo total do lote esconde compensações: uma guia paga a mais pode cobrir outra paga a menos. O padrão favorece a leitura guia a guia, porque cada guia leva o número atribuído pelo hospital [1].

Do lote ao crédito: onde cada demonstrativo entra na conciliaçãoFluxo em quatro passos: 1) o hospital envia o lote e a operadora gera o protocolo de recebimento; 2) o demonstrativo de análise de conta lista as guias analisadas, só com os itens glosados e o código da tabela 38, e a situação das guias sem análise concluída; 3) o demonstrativo de pagamento traz os valores pagos por data e os débitos e créditos da tabela 27; 4) o extrato bancário é conferido com o demonstrativo de pagamento. Cada divergência segue para recurso de glosa, correção e refaturamento, cobrança ou tesouraria. Do lote ao crédito: onde cada demonstrativo entra na conciliação Cada diferença encontrada segue para um destino próprio 1. Lote enviado Operadora gera o protocolo que comprova o recebimento 2. Demonstrativo de análise de conta Guias analisadas: só itens glosados (tabela 38) Guias sem análise concluída: situação 3. Demonstrativo de pagamento Valores pagos por data Débitos e créditos (tabela 27) 4. Extrato bancário Crédito líquido confere com o demonstrativo de pagamento? Divergência? Encaminhar Recurso de glosa glosa contestável Corrigir e refaturar erro do hospital Cobrança em análise ou liberado e não pago Tesouraria débito sem explicação Fonte: ANS — Componente Organizacional TISS 202609 (itens 33, 49, 55, 56) e TUSS tabelas 27 e 38. Destinos: organização editorial.
Fonte: ANS — Componente Organizacional TISS 202609 (itens 33, 49, 55 e 56) e TUSS, tabelas 27 e 38. Os quatro destinos das divergências são uma organização editorial deste guia. Produzido por Accrua.
  1. Faturado x protocolo. Confira se cada guia enviada está no lote protocolado, com o mesmo valor informado.
  2. Protocolo x análise. No demonstrativo de análise de conta, separe as guias analisadas das que estão em análise. Nas analisadas, registre cada item glosado, o valor e o código.
  3. Análise x pagamento. Confira se o valor liberado de cada guia aparece no demonstrativo de pagamento e em qual data.
  4. Pagamento x banco. Bata o valor líquido do demonstrativo de pagamento com o crédito no extrato. A diferença deve ser explicada pelos débitos e créditos da tabela 27.
  5. Baixa e encaminhamento. Dê baixa no que fechou. Cada diferença vai para uma fila com dono e prazo.

A ANS considera uma guia “fechada” quando o valor pago mais o valor glosado alcança o valor informado [6]. É um bom critério interno: enquanto pago mais glosado for menor que o informado, a guia segue aberta na conciliação. A rotina completa, do crédito bancário à baixa de cada guia, está no guia Conciliação de pagamentos de operadoras. O saldo que fica aberto entra no Aging de contas a receber de operadoras.

Exemplo ilustrativo (valores fictícios, só para mostrar a conta):

GuiaInformadoLiberadoGlosadoPago no bancoSituação
AR$ 10.000R$ 9.200R$ 800 (código 1705)R$ 9.200Fechada; avaliar recurso dos R$ 800
BR$ 4.000R$ 4.000—R$ 0Liberada e não paga: cobrar
CR$ 6.000———Em análise: acompanhar o prazo do contrato

O que fazer com cada divergência

Cada tipo de divergência tem um destino diferente, e misturar os caminhos atrasa a solução. Glosa vai para recurso; valor liberado e não pago vai para cobrança; erro do próprio hospital vai para correção.

DivergênciaComo apareceDestino
Item glosado com motivo contestávelCódigo da tabela 38 no demonstrativo de análiseRecurso de glosa, dentro do prazo do contrato
Glosa procedente por erro do hospitalCódigo de valor, quantidade ou cadastro com erro confirmadoCorrigir a causa; refaturar se o contrato permitir
Guia em análise além do prazo do contratoSituação sem conclusãoCobrar a análise com o protocolo
Valor liberado não pagoLiberado no demonstrativo de análise, ausente no de pagamentoCobrança, com protocolo e demonstrativo
Crédito menor que o demonstrativo de pagamentoDiferença no extratoTesouraria confere débitos e créditos e pede o detalhamento
Débito sem explicaçãoDesconto financeiro ou ajuste de pagamento anteriorPedir a origem; contestar se não houver base no contrato
Recurso acatado e não pagoMensagem 3095 sem crédito correspondenteCobrar o pagamento após a reversão

A tabela 38 traz mensagens para o retorno do recurso, como 3095 (recurso de glosa acatado) [2]. Elas também precisam ser conciliadas: recurso ganho só termina quando o valor cai na conta.

Dois apoios normativos ajudam nas divergências. A Resolução Normativa (RN) 503/2022 veda à operadora impedir o acesso às justificativas de glosa e impedir a contestação, quando o faturamento segue o padrão TISS vigente [5]. A mesma norma exige que o contrato preveja os prazos de contestação, de resposta e de pagamento após a reversão da glosa [5]. O prazo para contestar está no guia Prazo para recurso de glosa.

Qual é o prazo de pagamento da operadora?

O prazo de pagamento é o que estiver escrito no contrato entre o hospital e a operadora. O art. 17-A da Lei 9.656/1998, incluído pela Lei 13.003/2014, obriga o contrato a fixar prazos e procedimentos de faturamento e pagamento [4]. A lei não define um prazo máximo em dias, e a RN 503/2022 também não [4] [5].

Por isso, a conciliação precisa ter o prazo de cada contrato cadastrado. Sem ele, não há como saber se uma guia “em análise” ou um valor liberado e não pago está dentro do combinado ou em atraso. O que fazer quando o prazo estoura está no guia Atraso de pagamento da operadora.

O efeito no caixa é direto. Nos hospitais associados à Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), o prazo médio de recebimento foi de 77,35 dias em 2025 [7]. Cada demonstrativo lido tarde empurra o recurso e o recebimento para frente. O indicador está no guia Prazo médio de recebimento hospitalar.

O que vemos na operação

Na Accrua, a conciliação do demonstrativo é uma das etapas que os agentes do Accrua OS executam sozinhos, porque tem regra definida. Para cada lote, o sistema acompanha o protocolo, cobra o demonstrativo quando o prazo do contrato passa e lê o demonstrativo de análise de conta guia a guia, ligando cada glosa ao seu código da tabela 38 e ao item da conta.

Depois, cruzamos o demonstrativo de pagamento com o crédito bancário. As divergências são separadas por tipo: débito sem explicação, valor liberado e não pago, recurso acatado e não pago, retenção ou desconto da tabela 27 sem base no contrato. Cada tipo tem um encaminhamento próprio.

Glosa que não foi lida não é recorrida. Por isso, cada item glosado entra numa fila com o prazo de recurso e um rascunho com a evidência que a operadora pede. Aceitar a glosa ou desistir do recurso passa por um faturista ou auditor, que recebe tudo consolidado com a fonte, e a decisão fica em trilha auditável.

Por onde começar

  1. Cadastre o prazo de pagamento e o prazo de recurso de cada contrato no sistema de contas a receber.
  2. Controle protocolo por lote: todo lote enviado com protocolo, todo protocolo com demonstrativo solicitado.
  3. Importe os demonstrativos em XML e cruze guia a guia pelo número da guia no prestador, nunca só pelo total.
  4. Separe as divergências por destino (recurso, refaturamento, cobrança, tesouraria), cada fila com responsável e prazo.
  5. Concilie o recurso até o crédito, incluindo os valores acatados que ainda não foram pagos.

Perguntas frequentes sobre o demonstrativo de pagamento da operadora

Qual a diferença entre demonstrativo de análise de conta e demonstrativo de pagamento?

O de análise de conta mostra, guia a guia, o que a operadora aceitou e glosou, com o código da tabela 38. O de pagamento mostra o que foi pago, em que data e com quais retenções e ajustes. O primeiro serve para o recurso; o segundo, para bater com o banco.

Como solicitar o demonstrativo à operadora?

Pelo número de protocolo que a operadora gerou ao receber o lote. O hospital envia a mensagem de solicitação de demonstrativo de retorno, e a operadora envia o demonstrativo ou informa que ele ainda não está pronto.

Se um item não aparece no demonstrativo de análise de conta, ele foi glosado?

Não. Nas guias já analisadas, o demonstrativo lista só os itens com glosa. O que não aparece foi aceito.

Por que o valor creditado é menor que o liberado?

Em geral, por retenções de impostos e por descontos ou ajustes informados como débitos no demonstrativo de pagamento, codificados na tabela 27 da TUSS. Se a diferença não for explicada por esses lançamentos, peça o detalhamento à operadora.

Qual o prazo para a operadora pagar o hospital?

O prazo que estiver no contrato. A Lei 9.656/1998 obriga o contrato a fixar prazos de faturamento e pagamento, mas nem a lei nem a RN 503/2022 definem um prazo máximo.

O demonstrativo ajuda a documentar o recurso e a cobrança?

Sim. Ele é o registro da própria operadora sobre o que analisou, glosou e pagou, com o número do protocolo. Guarde o XML original junto com o lote enviado. O valor do documento numa disputa judicial depende do caso e deve ser avaliado com o jurídico.

Fontes

  1. ANS — Padrão TISS: Componente Organizacional, versão 202609 (setembro de 2026), itens 33, 47, 49, 55, 56, 62, 78, 151 e 165.
  2. ANS — Terminologia TUSS, tabela 38 (mensagens), versão 202607, planilha oficial “Demais terminologias” da ANS, conferida em 18/10/2026: 1705, 3095, 3209.
  3. ANS — Terminologia TUSS, tabela 27 (débitos e créditos), versão 202607, planilha oficial “Demais terminologias” da ANS, conferida em 18/10/2026: códigos 01 a 09, vigentes desde 10/10/2012.
  4. Brasil — Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998, art. 17-A, § 2º, II (incluído pela Lei nº 13.003/2014).
  5. ANS — Resolução Normativa nº 503, de 30 de março de 2022 (contratos entre operadoras e prestadores), arts. 5º, V e VI, e parágrafo único, e 14.
  6. ANS — Nota Técnica nº 25/2020/GASNT (Painel de Indicadores de Glosa), itens 11, 16 a 21, 58 e 60 a 67.
  7. Anahp — Balanço Observatório Anahp, 9ª edição, março de 2026 (dados de 2025).
  8. ANS — Padrão TISS: Componente de Conteúdo e Estrutura, versão 202511 (arquivo .zip).