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Guias · Glosa

Recurso de glosa: como fazer, passo a passo e modelo pronto

Como montar o recurso no padrão TISS, dentro do prazo do contrato. O roteiro do recurso, os documentos de prova e o modelo para baixar.

Por Publicado em 10 min de leitura

O que é recurso de glosa?

Recurso de glosa é a contestação formal que o hospital envia à operadora pedindo que ela reanalise e pague um item ou uma conta glosada. O padrão TISS (Troca de Informações na Saúde Suplementar) é definido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Seu Componente Organizacional descreve o recurso como o processo usado quando o prestador contesta glosas de um ou mais procedimentos ou itens da conta [2].

A glosa chega no demonstrativo de análise de conta, que lista, para cada guia já analisada, os procedimentos e itens glosados [2]. Cada glosa traz um código de motivo da tabela 38 da Terminologia Unificada da Saúde Suplementar (TUSS), como 3209, cobrança de procedimento ou item assistencial em duplicidade [4]. O panorama completo do tema está no guia Glosa hospitalar.

O recurso é o caminho para transformar a glosa inicial em receita. A glosa que não é contestada no prazo tende a virar glosa aceita, ou seja, perda definitiva.

O recurso de glosa no padrão TISS: quatro mensagens

O recurso de glosa é de implantação eletrônica obrigatória entre operadoras e prestadores (item 33 do Componente Organizacional 202609) [2]. Estão na mesma lista a cobrança, o lote de anexos da autorização, a comunicação de internação ou alta e os demonstrativos de retorno [2]. O processo tem quatro mensagens [2]:

MensagemQuem enviaPara que serve
Recurso de glosaHospital → operadoraQuestiona a glosa aplicada na cobrança
Recebimento do recursoOperadora → hospitalDevolve o número de protocolo, que comprova o recebimento
Solicitação de statusHospital → operadoraPede a resposta de um recurso já enviado
Resposta ao recursoOperadora → hospitalAcata ou não o recurso; se ainda estiver em análise, envia novo protocolo

Para o hospital, o protocolo é a peça central: é a prova de que o recurso foi recebido [2] e a referência de data para cobrar a resposta no prazo do contrato. Recurso sem protocolo é difícil de cobrar depois. O padrão completo está explicado no guia Padrão TISS.

Os campos da mensagem de recurso são definidos no Componente de Conteúdo e Estrutura do TISS (versão 202511 em setembro de 2026) [3]. Na prática, o sistema de faturamento gera o recurso a partir do demonstrativo, identificando o beneficiário, o prestador executante e os itens contestados, com o valor recorrido e a justificativa de cada um. Algumas operadoras também recebem o recurso digitado em portal próprio; mesmo assim, ele precisa seguir o padrão.

Qual é o prazo para recorrer de uma glosa?

O prazo é o que está no contrato com a operadora. A RN 503/2022 não fixa número de dias, mas obriga o contrato a prever três prazos: para o hospital contestar a glosa, para a operadora responder e para a operadora pagar quando a glosa for revertida (art. 14) [1].

A regra mais objetiva é a da paridade: o prazo de contestação deve ser igual ao prazo de resposta da operadora (art. 14, parágrafo único) [1]. Se o hospital tem 30 dias para recorrer, a operadora tem 30 dias para responder (exemplo ilustrativo). Prazos desiguais no contrato estão fora da norma. O detalhe está no guia Prazo para recurso de glosa, e a conferência do contrato, no guia RN 503/2022: o contrato com a operadora.

O art. 5º da RN 503 veda que a operadora crie regras que impeçam o hospital de acessar as rotinas de auditoria e as justificativas das glosas, ou que impeçam a contestação (incisos V e VI) [1]. O parágrafo único traz uma condição: essas vedações só valem se o faturamento for enviado no padrão TISS vigente [1]. Conta fora do padrão enfraquece o próprio direito de recorrer.

Como fazer o recurso de glosa, passo a passo

O recurso eficiente começa antes de escrever a justificativa: na triagem do que vale contestar e na prova certa para cada motivo.

Fluxo do recurso de glosa no padrão TISSSeis passos: demonstrativo, prazo, triagem, prova, envio com protocolo e resposta com pagamento. Fluxo do recurso de glosa no padrão TISS 1. Demonstrativo de análise de contaGlosas por motivo (tabela 38 TUSS), valor e data 2. Prazo do contratoData-limite de contestação (RN 503, art. 14) 3. TriagemA glosa é procedente ou indevida? Indevida Procedente Corrigir na origem erefaturar, se o contrato permitir 4. Prova por tipo de glosaAutorização, prontuário, contrato, nota fiscal 5. Recurso no padrão TISSMensagem eletrônica obrigatória → protocolo 6. Resposta da operadoraPrazo igual ao de contestação (RN 503) Acatado Pagamento no prazo docontrato e conciliação Não acatado Nova contestação ounegociação, conforme contrato Em análise Novo protocolo;solicitar status Fonte: ANS, RN 503/2022 e Padrão TISS, Componente Organizacional 202609.
Fonte: ANS, RN 503/2022 e Padrão TISS, Componente Organizacional, versão 202609 (setembro de 2026). Fluxo simplificado do recurso de glosa entre hospital e operadora. Produzido por Accrua.
  1. Leia o demonstrativo de análise de conta. Importe o arquivo do demonstrativo para o sistema e separe as glosas por operadora, motivo (código da tabela 38), valor e data de recebimento.
  2. Confira o prazo de cada operadora. Registre a data-limite de contestação prevista no contrato e priorize por vencimento e valor.
  3. Triagem: procedente ou indevida? Glosa procedente, causada por erro do hospital, é corrigida na origem e, se o contrato permitir, refaturada; não se recorre dela. Glosa indevida segue para recurso.
  4. Reúna a prova. Cada motivo pede um documento específico (veja a tabela abaixo). A justificativa sem prova tende a ser recusada.
  5. Envie o recurso no padrão TISS, item a item, e guarde o número de protocolo [2].
  6. Acompanhe a resposta e o pagamento. Use a solicitação de status se o prazo de resposta vencer [2]. Se a glosa for revertida, confira o pagamento no prazo do contrato [1].

O recurso não termina no envio: só fecha quando o valor revertido aparece no demonstrativo de pagamento e é conciliado. Esse controle está no guia Demonstrativo de análise de conta e de pagamento.

Que documentos anexar em cada tipo de glosa?

A prova depende do motivo da glosa. A divisão entre glosa administrativa, técnica e linear é uma convenção do mercado, não uma definição da ANS, mas indica quem trata cada uma e que documento sustenta o recurso. Os tipos estão detalhados no guia Tipos de glosa.

Tipo de glosaExemplos de motivoProva que sustenta o recursoQuem prepara
Administrativa: cadastroCarteira inválida (código 1001 da tabela 38) [4], beneficiário inativo na dataComprovante de elegibilidade da data do atendimento; cópia da carteiraFaturamento e recepção
Administrativa: autorizaçãoProcedimento sem autorização; senha vencida; diárias além do autorizadoSenha e data da autorização; pedido de prorrogação com protocolo; registro de urgênciaCentral de autorizações
Administrativa: cobrançaDuplicidade (código 3209) [4]; código TUSS divergente; valor fora da tabelaGuias que mostram que não há duplicidade; tabela e cláusula do contrato; versão da TUSS vigenteFaturamento
Técnica: pertinência clínicaMaterial ou medicamento acima do esperado; diária sem justificativaPrescrição, checagem de enfermagem, evolução, descrição cirúrgica, relatório do médico assistenteAuditoria médica e de enfermagem
Técnica: OPMEMaterial não autorizado ou divergenteAutorização da OPME, nota fiscal, etiquetas de rastreabilidade, descrição cirúrgicaAuditoria e suprimentos
LinearCorte percentual sem análise individualCláusula do contrato com as hipóteses de glosa; demonstração de que o motivo não está previstoGestão de contratos e jurídico

No caso da glosa técnica, o parecer precisa ser feito por quem tem atribuição para isso. A Resolução Cofen 720/2023 inclui os recursos de glosa entre as atividades do enfermeiro auditor, com o número do Coren nos pareceres [7]. As regras de cada profissional estão nos guias Auditoria médica e Auditoria de enfermagem.

Modelo pronto: a estrutura do recurso por tipo de glosa

O modelo abaixo é uma estrutura de redação da justificativa, não o formulário do TISS. Os campos de envio vêm do sistema e da mensagem do padrão; o texto da justificativa é o que o hospital controla. Uma boa justificativa tem quatro partes:

  1. Identificação: operadora, número do lote, número da guia, beneficiário, data do atendimento, item contestado, código do motivo da glosa e valor recorrido.
  2. Fato: o que foi feito, quando e por quê, em uma ou duas frases.
  3. Fundamento: a regra que sustenta a cobrança (cláusula do contrato, autorização, tabela, versão da TUSS ou norma).
  4. Prova e pedido: os documentos anexados e o pedido de reversão e pagamento do valor, no prazo do contrato.

Exemplos de justificativa (texto ilustrativo, adaptar ao caso e ao contrato):

Motivo da glosaModelo de justificativa
Falta de autorização“O procedimento [código TUSS] foi autorizado em [data], senha [número], válida até [data], e realizado em [data], dentro da validade. Anexamos o comprovante da autorização. Solicitamos a reversão e o pagamento de R$ [valor].”
Senha vencida em internação“A prorrogação foi solicitada em [data], protocolo [número], antes do vencimento da senha. A permanência está justificada na evolução médica de [datas], anexa. Solicitamos o pagamento das [n] diárias glosadas.”
Duplicidade“Os itens cobrados nas guias [números] referem-se a atendimentos distintos, em [datas e horários], conforme registros anexos. Não há cobrança em duplicidade. Solicitamos a reversão.”
Valor fora da tabela“O valor cobrado segue a cláusula [número] do contrato, que adota [tabela e edição] com [fator]. Anexamos a cláusula e o cálculo. Solicitamos o pagamento da diferença de R$ [valor].”
Quantidade de material acima do esperado“A quantidade de [item] está registrada na prescrição e na checagem de enfermagem de [datas], com a justificativa clínica na evolução, anexas. Solicitamos a reversão integral.”
Glosa linear“A glosa de [percentual] sobre [grupo de itens] não indica motivo individual nem corresponde às hipóteses de glosa da cláusula [número] do contrato, exigidas pelo art. 14 da RN 503/2022. Solicitamos a reversão e a justificativa item a item.”

Duas regras valem para todos os casos: uma justificativa por item, específica para o motivo apontado, e nenhum texto genérico do tipo “procedimento realizado conforme prescrição”. O modelo completo para baixar está no CTA ao fim deste guia.

A operadora pode glosar um procedimento que autorizou?

A RN 503/2022 não trata desse caso. A Resolução CFM 2.448/2025, que regula a auditoria médica, veda ao médico auditor glosar procedimento previamente autorizado e comprovadamente realizado [5]. Em março de 2026, porém, o Conselho Federal de Medicina (CFM) informou que entidades de operadoras obtiveram na Justiça Federal a suspensão de alguns artigos da resolução, entre eles essa vedação [6]. O texto da resolução publicado pelo CFM, consultado em 17/10/2026, mantém artigos marcados como suspensos no processo 1017752-74.2026.4.01.3400 [5].

A Consulta Pública 170/2026 da ANS propõe regra semelhante para os contratos: procedimento autorizado e realizado não seria glosado se a conta seguir o contrato e não houver divergência técnica apontada em auditoria [9]. Até 17 de outubro de 2026, a norma final não havia sido publicada [9].

Enquanto isso, a glosa de procedimento autorizado continua sendo contestada com a própria autorização, o registro do atendimento e as cláusulas do contrato. A autorização é a prova mais forte que o hospital tem nesse recurso.

O que vemos na operação

Na Accrua, o recurso começa pelo demonstrativo. Os agentes conciliam o retorno da operadora guia a guia, separam cada item glosado pelo código da tabela 38 da TUSS e acompanham o prazo de contestação que o contrato define. Para cada item, preparam um rascunho de recurso com a evidência que aquela operadora pede para aquele motivo: trecho do prontuário, autorização, cláusula do contrato ou tabela vigente.

A decisão de recorrer, aceitar a glosa ou desistir do recurso é sempre de uma pessoa. O faturista ou auditor recebe o caso consolidado, com a fonte de cada argumento, e cada escolha fica em trilha auditável, com autor, base e horário. Depois do protocolo, os agentes acompanham a resposta e o crédito do valor revertido até a conciliação.

Também separamos o que não deveria ser recorrido. Quando a glosa é procedente, o caminho é corrigir a origem: cadastro, lançamento ou regra de autorização. O resultado de cada recurso, acatado ou não, volta para a conferência das próximas contas daquela operadora.

Por onde começar

  1. Monte uma tabela de prazos de contestação, resposta e pagamento de cada operadora, tirada dos contratos.
  2. Importe os demonstrativos e classifique as glosas por código da tabela 38, valor e prazo.
  3. Padronize a justificativa com a estrutura de quatro partes e os exemplos por motivo deste guia.
  4. Defina quem prova o quê: faturamento para glosas administrativas, auditoria médica e de enfermagem para as técnicas.
  5. Meça a taxa de reversão e o prazo de pagamento dos recursos, por operadora e por motivo, todo mês.

Perguntas frequentes sobre recurso de glosa

O que é recurso de glosa?

É a contestação formal que o hospital envia à operadora pedindo a reanálise e o pagamento de um item ou de uma conta glosada. No padrão TISS da ANS, é uma mensagem eletrônica obrigatória entre operadoras e prestadores.

Qual o prazo para entrar com recurso de glosa?

O prazo é definido no contrato entre hospital e operadora. A RN 503/2022 não fixa o número de dias, mas exige que o contrato preveja o prazo e determina que ele seja igual ao prazo de resposta da operadora.

Que documentos anexar ao recurso de glosa?

Depende do motivo: comprovante de elegibilidade para glosa de cadastro, senha e data da autorização para glosa de autorização, cláusula e tabela do contrato para glosa de valor, e prontuário, prescrição e checagem de enfermagem para glosa técnica.

O recurso de glosa pode ser enviado por e-mail?

O padrão TISS prevê o recurso como mensagem eletrônica, com número de protocolo gerado pela operadora. Envios por e-mail ou telefone não geram esse protocolo, que é a prova do recebimento e a referência para cobrar a resposta.

O que fazer se a operadora não responder ao recurso?

Enviar a solicitação de status prevista no padrão TISS e cobrar a resposta no prazo do contrato, que pela RN 503/2022 deve ser igual ao prazo de contestação. A falta de resposta deve ser registrada e levada à negociação com a operadora.

A operadora pode impedir o recurso de glosa?

Não. A RN 503/2022 veda que a operadora impeça a contestação ou o acesso às justificativas de glosa, desde que o hospital envie o faturamento no padrão TISS vigente.

Fontes

  1. ANS — Resolução Normativa nº 503, de 30 de março de 2022 (contratos entre operadoras e prestadores), arts. 5º, V e VI, e parágrafo único, e 14.
  2. ANS — Padrão TISS: Componente Organizacional, versão 202609 (setembro de 2026), itens 33, 51, 55 e 56.
  3. ANS — Padrão TISS – Setembro/2026: identificação da versão vigente dos componentes (Componente de Conteúdo e Estrutura 202511).
  4. ANS — Terminologia TUSS, tabela 38 (mensagens do padrão TISS, motivos de glosa), versão 202607 (planilha oficial da ANS “TUSS - Demais terminologias”), conferida em 18/10/2026.
  5. Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 2.448/2025 (auditoria médica).
  6. Conselho Federal de Medicina — “Planos de saúde agem para restringir acesso de pacientes a diagnóstico e tratamento médico”, 24/03/2026 (suspensão judicial de artigos da Resolução CFM 2.448/2025).
  7. Conselho Federal de Enfermagem — Resolução Cofen nº 720/2023 (enfermeiro auditor).
  8. Anahp — Balanço Observatório Anahp, 9ª edição, março de 2026 (dados de 2025).
  9. ANS — Consulta Pública nº 170/2026 (minuta sobre contratos entre operadoras e prestadores) e Deliberações da 644ª Reunião da Diretoria Colegiada (09/10/2026). link ·