O que é recurso de glosa?
Recurso de glosa é a contestação formal que o hospital envia à operadora pedindo que ela reanalise e pague um item ou uma conta glosada. O padrão TISS (Troca de Informações na Saúde Suplementar) é definido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Seu Componente Organizacional descreve o recurso como o processo usado quando o prestador contesta glosas de um ou mais procedimentos ou itens da conta [2].
A glosa chega no demonstrativo de análise de conta, que lista, para cada guia já analisada, os procedimentos e itens glosados [2]. Cada glosa traz um código de motivo da tabela 38 da Terminologia Unificada da Saúde Suplementar (TUSS), como 3209, cobrança de procedimento ou item assistencial em duplicidade [4]. O panorama completo do tema está no guia Glosa hospitalar.
O recurso é o caminho para transformar a glosa inicial em receita. A glosa que não é contestada no prazo tende a virar glosa aceita, ou seja, perda definitiva.
O recurso de glosa no padrão TISS: quatro mensagens
O recurso de glosa é de implantação eletrônica obrigatória entre operadoras e prestadores (item 33 do Componente Organizacional 202609) [2]. Estão na mesma lista a cobrança, o lote de anexos da autorização, a comunicação de internação ou alta e os demonstrativos de retorno [2]. O processo tem quatro mensagens [2]:
| Mensagem | Quem envia | Para que serve |
|---|---|---|
| Recurso de glosa | Hospital → operadora | Questiona a glosa aplicada na cobrança |
| Recebimento do recurso | Operadora → hospital | Devolve o número de protocolo, que comprova o recebimento |
| Solicitação de status | Hospital → operadora | Pede a resposta de um recurso já enviado |
| Resposta ao recurso | Operadora → hospital | Acata ou não o recurso; se ainda estiver em análise, envia novo protocolo |
Para o hospital, o protocolo é a peça central: é a prova de que o recurso foi recebido [2] e a referência de data para cobrar a resposta no prazo do contrato. Recurso sem protocolo é difícil de cobrar depois. O padrão completo está explicado no guia Padrão TISS.
Os campos da mensagem de recurso são definidos no Componente de Conteúdo e Estrutura do TISS (versão 202511 em setembro de 2026) [3]. Na prática, o sistema de faturamento gera o recurso a partir do demonstrativo, identificando o beneficiário, o prestador executante e os itens contestados, com o valor recorrido e a justificativa de cada um. Algumas operadoras também recebem o recurso digitado em portal próprio; mesmo assim, ele precisa seguir o padrão.
Qual é o prazo para recorrer de uma glosa?
O prazo é o que está no contrato com a operadora. A RN 503/2022 não fixa número de dias, mas obriga o contrato a prever três prazos: para o hospital contestar a glosa, para a operadora responder e para a operadora pagar quando a glosa for revertida (art. 14) [1].
A regra mais objetiva é a da paridade: o prazo de contestação deve ser igual ao prazo de resposta da operadora (art. 14, parágrafo único) [1]. Se o hospital tem 30 dias para recorrer, a operadora tem 30 dias para responder (exemplo ilustrativo). Prazos desiguais no contrato estão fora da norma. O detalhe está no guia Prazo para recurso de glosa, e a conferência do contrato, no guia RN 503/2022: o contrato com a operadora.
O art. 5º da RN 503 veda que a operadora crie regras que impeçam o hospital de acessar as rotinas de auditoria e as justificativas das glosas, ou que impeçam a contestação (incisos V e VI) [1]. O parágrafo único traz uma condição: essas vedações só valem se o faturamento for enviado no padrão TISS vigente [1]. Conta fora do padrão enfraquece o próprio direito de recorrer.
Como fazer o recurso de glosa, passo a passo
O recurso eficiente começa antes de escrever a justificativa: na triagem do que vale contestar e na prova certa para cada motivo.
- Leia o demonstrativo de análise de conta. Importe o arquivo do demonstrativo para o sistema e separe as glosas por operadora, motivo (código da tabela 38), valor e data de recebimento.
- Confira o prazo de cada operadora. Registre a data-limite de contestação prevista no contrato e priorize por vencimento e valor.
- Triagem: procedente ou indevida? Glosa procedente, causada por erro do hospital, é corrigida na origem e, se o contrato permitir, refaturada; não se recorre dela. Glosa indevida segue para recurso.
- Reúna a prova. Cada motivo pede um documento específico (veja a tabela abaixo). A justificativa sem prova tende a ser recusada.
- Envie o recurso no padrão TISS, item a item, e guarde o número de protocolo [2].
- Acompanhe a resposta e o pagamento. Use a solicitação de status se o prazo de resposta vencer [2]. Se a glosa for revertida, confira o pagamento no prazo do contrato [1].
O recurso não termina no envio: só fecha quando o valor revertido aparece no demonstrativo de pagamento e é conciliado. Esse controle está no guia Demonstrativo de análise de conta e de pagamento.
Que documentos anexar em cada tipo de glosa?
A prova depende do motivo da glosa. A divisão entre glosa administrativa, técnica e linear é uma convenção do mercado, não uma definição da ANS, mas indica quem trata cada uma e que documento sustenta o recurso. Os tipos estão detalhados no guia Tipos de glosa.
| Tipo de glosa | Exemplos de motivo | Prova que sustenta o recurso | Quem prepara |
|---|---|---|---|
| Administrativa: cadastro | Carteira inválida (código 1001 da tabela 38) [4], beneficiário inativo na data | Comprovante de elegibilidade da data do atendimento; cópia da carteira | Faturamento e recepção |
| Administrativa: autorização | Procedimento sem autorização; senha vencida; diárias além do autorizado | Senha e data da autorização; pedido de prorrogação com protocolo; registro de urgência | Central de autorizações |
| Administrativa: cobrança | Duplicidade (código 3209) [4]; código TUSS divergente; valor fora da tabela | Guias que mostram que não há duplicidade; tabela e cláusula do contrato; versão da TUSS vigente | Faturamento |
| Técnica: pertinência clínica | Material ou medicamento acima do esperado; diária sem justificativa | Prescrição, checagem de enfermagem, evolução, descrição cirúrgica, relatório do médico assistente | Auditoria médica e de enfermagem |
| Técnica: OPME | Material não autorizado ou divergente | Autorização da OPME, nota fiscal, etiquetas de rastreabilidade, descrição cirúrgica | Auditoria e suprimentos |
| Linear | Corte percentual sem análise individual | Cláusula do contrato com as hipóteses de glosa; demonstração de que o motivo não está previsto | Gestão de contratos e jurídico |
No caso da glosa técnica, o parecer precisa ser feito por quem tem atribuição para isso. A Resolução Cofen 720/2023 inclui os recursos de glosa entre as atividades do enfermeiro auditor, com o número do Coren nos pareceres [7]. As regras de cada profissional estão nos guias Auditoria médica e Auditoria de enfermagem.
Modelo pronto: a estrutura do recurso por tipo de glosa
O modelo abaixo é uma estrutura de redação da justificativa, não o formulário do TISS. Os campos de envio vêm do sistema e da mensagem do padrão; o texto da justificativa é o que o hospital controla. Uma boa justificativa tem quatro partes:
- Identificação: operadora, número do lote, número da guia, beneficiário, data do atendimento, item contestado, código do motivo da glosa e valor recorrido.
- Fato: o que foi feito, quando e por quê, em uma ou duas frases.
- Fundamento: a regra que sustenta a cobrança (cláusula do contrato, autorização, tabela, versão da TUSS ou norma).
- Prova e pedido: os documentos anexados e o pedido de reversão e pagamento do valor, no prazo do contrato.
Exemplos de justificativa (texto ilustrativo, adaptar ao caso e ao contrato):
| Motivo da glosa | Modelo de justificativa |
|---|---|
| Falta de autorização | “O procedimento [código TUSS] foi autorizado em [data], senha [número], válida até [data], e realizado em [data], dentro da validade. Anexamos o comprovante da autorização. Solicitamos a reversão e o pagamento de R$ [valor].” |
| Senha vencida em internação | “A prorrogação foi solicitada em [data], protocolo [número], antes do vencimento da senha. A permanência está justificada na evolução médica de [datas], anexa. Solicitamos o pagamento das [n] diárias glosadas.” |
| Duplicidade | “Os itens cobrados nas guias [números] referem-se a atendimentos distintos, em [datas e horários], conforme registros anexos. Não há cobrança em duplicidade. Solicitamos a reversão.” |
| Valor fora da tabela | “O valor cobrado segue a cláusula [número] do contrato, que adota [tabela e edição] com [fator]. Anexamos a cláusula e o cálculo. Solicitamos o pagamento da diferença de R$ [valor].” |
| Quantidade de material acima do esperado | “A quantidade de [item] está registrada na prescrição e na checagem de enfermagem de [datas], com a justificativa clínica na evolução, anexas. Solicitamos a reversão integral.” |
| Glosa linear | “A glosa de [percentual] sobre [grupo de itens] não indica motivo individual nem corresponde às hipóteses de glosa da cláusula [número] do contrato, exigidas pelo art. 14 da RN 503/2022. Solicitamos a reversão e a justificativa item a item.” |
Duas regras valem para todos os casos: uma justificativa por item, específica para o motivo apontado, e nenhum texto genérico do tipo “procedimento realizado conforme prescrição”. O modelo completo para baixar está no CTA ao fim deste guia.
A operadora pode glosar um procedimento que autorizou?
A RN 503/2022 não trata desse caso. A Resolução CFM 2.448/2025, que regula a auditoria médica, veda ao médico auditor glosar procedimento previamente autorizado e comprovadamente realizado [5]. Em março de 2026, porém, o Conselho Federal de Medicina (CFM) informou que entidades de operadoras obtiveram na Justiça Federal a suspensão de alguns artigos da resolução, entre eles essa vedação [6]. O texto da resolução publicado pelo CFM, consultado em 17/10/2026, mantém artigos marcados como suspensos no processo 1017752-74.2026.4.01.3400 [5].
A Consulta Pública 170/2026 da ANS propõe regra semelhante para os contratos: procedimento autorizado e realizado não seria glosado se a conta seguir o contrato e não houver divergência técnica apontada em auditoria [9]. Até 17 de outubro de 2026, a norma final não havia sido publicada [9].
Enquanto isso, a glosa de procedimento autorizado continua sendo contestada com a própria autorização, o registro do atendimento e as cláusulas do contrato. A autorização é a prova mais forte que o hospital tem nesse recurso.
O que vemos na operação
Na Accrua, o recurso começa pelo demonstrativo. Os agentes conciliam o retorno da operadora guia a guia, separam cada item glosado pelo código da tabela 38 da TUSS e acompanham o prazo de contestação que o contrato define. Para cada item, preparam um rascunho de recurso com a evidência que aquela operadora pede para aquele motivo: trecho do prontuário, autorização, cláusula do contrato ou tabela vigente.
A decisão de recorrer, aceitar a glosa ou desistir do recurso é sempre de uma pessoa. O faturista ou auditor recebe o caso consolidado, com a fonte de cada argumento, e cada escolha fica em trilha auditável, com autor, base e horário. Depois do protocolo, os agentes acompanham a resposta e o crédito do valor revertido até a conciliação.
Também separamos o que não deveria ser recorrido. Quando a glosa é procedente, o caminho é corrigir a origem: cadastro, lançamento ou regra de autorização. O resultado de cada recurso, acatado ou não, volta para a conferência das próximas contas daquela operadora.
Por onde começar
- Monte uma tabela de prazos de contestação, resposta e pagamento de cada operadora, tirada dos contratos.
- Importe os demonstrativos e classifique as glosas por código da tabela 38, valor e prazo.
- Padronize a justificativa com a estrutura de quatro partes e os exemplos por motivo deste guia.
- Defina quem prova o quê: faturamento para glosas administrativas, auditoria médica e de enfermagem para as técnicas.
- Meça a taxa de reversão e o prazo de pagamento dos recursos, por operadora e por motivo, todo mês.