O que são os códigos de glosa TISS?
Os códigos de glosa TISS são as mensagens padronizadas da tabela 38 da Terminologia Unificada da Saúde Suplementar (TUSS). A operadora usa essas mensagens para dizer ao hospital por que recusou, total ou parcialmente, o pagamento de um item ou de uma guia.
A tabela 38 faz parte do padrão TISS (Troca de Informações na Saúde Suplementar), regido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Segundo o Componente Organizacional do padrão, as mensagens nasceram das discussões do Comitê de Padronização das Informações em Saúde Suplementar (COPISS). Elas servem às respostas da operadora nos processos de autorização e de cobrança [3]. Por isso a mesma tabela traz negativas de autorização e glosas de conta.
Saber o código é o começo do trabalho, não o fim. O código diz o motivo alegado; quem decide se a glosa é procedente é a análise do hospital. O panorama completo do problema está no guia Glosa hospitalar.
Onde o código aparece: o demonstrativo de análise de conta
O código aparece no demonstrativo de análise de conta, a resposta da operadora ao lote de cobrança enviado pelo hospital. Os demonstrativos de retorno (de análise de conta e de pagamento) são de implantação eletrônica obrigatória no padrão TISS [3].
O caminho é sempre o mesmo [3]:
- Lote enviado. O hospital envia as guias de cobrança em lote, em XML.
- Protocolo. A operadora gera um número de protocolo, que comprova o recebimento do lote.
- Pedido do demonstrativo. O hospital solicita o demonstrativo informando esse protocolo. A operadora envia o demonstrativo ou avisa que ele ainda não está disponível.
- Leitura. O demonstrativo de análise de conta traz todas as guias do lote. Nas guias analisadas, lista só os itens glosados; nas que estão em análise, mostra a situação.
- Ação. Para cada item glosado, o hospital lê a mensagem da tabela 38 e decide: corrigir e refaturar, recorrer ou negociar.
O demonstrativo de análise de conta mostra o que foi glosado e por quê. O demonstrativo de pagamento mostra o que foi pago. A conciliação dos dois está no guia Demonstrativo de análise de conta e de pagamento. Os campos exatos de cada demonstrativo estão no Componente de Conteúdo e Estrutura do padrão (versão 202511) [4].
Nem toda mensagem da tabela 38 é glosa. Códigos como 5001 (mensagem fora do padrão), 5002 (não foi possível validar o arquivo XML), 5014 (hash inválido) e 5028 (versão do padrão inválida) são críticas de lote: apontam problema no arquivo, não no conteúdo da conta, e se resolvem com correção e reenvio, não com recurso [1]. Essas críticas estão no guia Lote XML TISS: erros de envio.
Dois cuidados práticos na leitura:
- Guia em análise não é guia paga. Se a guia aparece com situação “em análise”, ainda não há glosa a recorrer, mas há prazo correndo no contrato.
- Item ausente do demonstrativo não é item glosado. Nas guias analisadas, o demonstrativo lista apenas os itens com glosa [3]. O que não aparece foi aceito.
Quais são os grupos de mensagens e o que fazer em cada um?
A forma mais útil de usar a tabela 38 é agrupar as mensagens pela ação que exigem. Os grupos abaixo são uma organização editorial deste guia, não uma divisão oficial da ANS. Todos os códigos foram conferidos na TUSS versão 202607 (planilha oficial da ANS), com início de vigência e sem fim de vigência [1].
| Grupo | Códigos conferidos [1] | O que a operadora alega | Ação recomendada | Prova típica |
|---|---|---|---|---|
| Beneficiário e cadastro | 1001 — Número da carteira inválido | O dado de identificação do beneficiário não confere | Conferir o cadastro e o comprovante de elegibilidade; se o erro foi do hospital, corrigir e refaturar | Print ou retorno da verificação de elegibilidade na data do atendimento |
| Autorização | 1414 — Data de validade da senha expirada · 3292 — Quantidade acima da autorizada | Item ou atendimento fora do que foi autorizado (prazo ou quantidade) | Comparar datas e quantidades com a resposta da autorização; recorrer se a senha estava válida; se houve prorrogação, anexar | Resposta da autorização, senha com data, pedido de prorrogação |
| Quantidade | 3190 — Quantidade incompatível com o procedimento · 3191 — Quantidade incorreta · 3293 — Quantidade acima da coberta | O número de unidades cobradas não confere com o procedimento, com o registro ou com a cobertura | Conferir a quantidade contra a prescrição, a checagem e o consumo; corrigir se houve erro de lançamento; recorrer com registro clínico se a quantidade é justificada | Prescrição, checagem de enfermagem, folha de sala, relatório de consumo |
| Duplicidade | 3209 — Procedimento ou item assistencial em duplicidade · 3232 — Duplicidade de conta por período já apresentado em outra parcial | O mesmo item ou período foi cobrado duas vezes | Cruzar com contas e parciais anteriores; se a duplicidade é real, aceitar; se são eventos distintos, recorrer mostrando datas e horários | Histórico de cobranças, registro de cada evento com horário |
| Valor | 1705 — Valor apresentado a maior · 1706 — Valor apresentado a menor · 3310 — Valor da nota fiscal divergente · 3311 — Valor informado inválido | O preço não segue o contrato, a tabela de referência ou a nota fiscal | Conferir a tabela de preços do contrato vigente na data e a nota fiscal; corrigir o cadastro se o erro foi interno; recorrer com a cláusula se o preço estava certo | Contrato, tabela negociada, nota fiscal do item |
| Técnica (pertinência clínica) | 3040 — Glosa técnica (especificar) · 3217 — Sem justificativa ou com justificativa insuficiente | O auditor questiona a necessidade clínica ou o registro do item | Encaminhar à auditoria médica ou de enfermagem do hospital; recorrer com trechos do prontuário, nunca com texto genérico | Evolução, prescrição, relatório médico, descrição cirúrgica |
Os nomes dos códigos acima foram resumidos; a redação oficial completa está na plataforma de consulta da TUSS [1]. Na mensagem 3040, a própria descrição pede que a operadora especifique o motivo. Se o demonstrativo trouxer o código sem explicação, o primeiro passo do recurso é pedir a justificativa.
Os grupos conversam com a classificação usada no mercado: os quatro primeiros costumam ser glosas administrativas, e o último, glosa técnica. A diferença está no guia Tipos de glosa.
Códigos antigos ainda circulam, mas não estão vigentes
Uma parte das listas de códigos de glosa que circulam na internet está desatualizada. Os códigos 1702, 1714, 1739, 1813 e 1820 não constam da TUSS versão 202607, a planilha oficial da ANS; na consulta on-line de 17/10/2026, apareciam sem datas de vigência [1]. O exemplo mais comum é o 1702, por anos usado para cobrança em duplicidade; a mensagem vigente para esse caso é a 3209.
O que isso muda no dia a dia:
- No sistema do hospital. O de-para de motivos de glosa (a tabela interna que liga cada código a uma causa e a um responsável) precisa ser atualizado com a série vigente.
- Na leitura do demonstrativo. Se uma operadora ainda envia um código sem vigência, vale registrar a ocorrência e pedir a mensagem correta. O padrão veda à operadora alterar o padrão ou manter tabela própria depois do prazo de implantação [3].
- Nos indicadores. Relatórios de glosa por motivo que misturam códigos antigos e novos precisam de um de-para, senão a série histórica se quebra.
A TUSS é atualizada com frequência. A versão vigente em setembro de 2026 é a 202609 [5]. Antes de citar um código num recurso ou num treinamento, confira a vigência na plataforma oficial. O guia Tabela TUSS mostra como fazer a consulta.
Como consultar um código na fonte oficial?
A consulta oficial é pública e gratuita. A ANS mantém a página “Códigos da TUSS”, com a terminologia em uma plataforma on-line que permite busca, download em Excel, CSV e JSON e acesso por API [2]. Na tabela 38, cada termo traz código, descrição e datas de início e fim de vigência e de fim de implantação [3].
Para cada código que aparecer no demonstrativo:
- Busque o código na tabela 38 da plataforma.
- Confira se está vigente na data do atendimento, não só na data de hoje.
- Leia a descrição completa, não só o título resumido do sistema.
- Registre o grupo, o responsável e a prova necessária no controle de glosas.
Do código ao recurso: o que o padrão e o contrato garantem
O recurso de glosa também é uma troca eletrônica obrigatória do padrão TISS. O Componente Organizacional prevê quatro mensagens: o recurso, o protocolo de recebimento, a solicitação de status e a resposta da operadora. Na resposta, a operadora acata, não acata ou informa nova análise [3]. O protocolo comprova o recebimento do recurso [3].
O prazo para recorrer não vem da tabela 38 nem do padrão TISS: vem do contrato. A RN 503/2022 obriga o contrato a prever as hipóteses de glosa e os prazos de contestação e de resposta, que devem ser iguais. Ela também veda à operadora impedir o acesso às justificativas da glosa e a contestação, quando o faturamento segue o padrão TISS vigente [7]. O passo a passo está no guia Recurso de glosa.
| Situação no demonstrativo | O que fazer | Base |
|---|---|---|
| Código claro, glosa procedente | Corrigir a causa e refaturar, se o contrato permitir | Contrato |
| Código claro, glosa indevida | Recorrer no prazo do contrato, com a prova do grupo | RN 503/2022 [7]; padrão TISS [3] |
| Código genérico ou sem explicação | Pedir a justificativa item a item antes ou junto do recurso | RN 503/2022, art. 5º, V [7] |
| Código sem vigência | Registrar, pedir a mensagem vigente e recorrer se a glosa for indevida | Padrão TISS [3] |
| Mesmo código se repete em muitas contas | Tratar a causa na origem e, se for padrão da operadora, levar à negociação | Contrato |
O código é o dado que a ANS não recebe
O motivo da glosa é um dado que só o hospital e a operadora têm. A ANS acompanha o volume de glosas por operadora no Painel de Indicadores de Glosa, mas não recebe o motivo de cada glosa [8]. Isso torna o controle por código uma vantagem interna: é a única forma de saber onde a conta perde dinheiro.
O tamanho do problema justifica o esforço. Nos hospitais associados à Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), a glosa inicial foi de 15,93% dos valores a receber das operadoras em 2025. A glosa aceita, perda definitiva, foi de 1,72% da receita bruta de convênios [6]. Os dois números têm bases diferentes e não se dividem um pelo outro. A diferença entre eles está no guia Glosa inicial, final e aceita; a série histórica, em Dados do setor.
O que vemos na operação
Na Accrua, o código da tabela 38 é o ponto de partida de cada decisão sobre uma glosa, e não o fim da análise. A conciliação do demonstrativo de análise de conta roda guia a guia no Accrua OS: cada item glosado é ligado ao seu código, ao contrato e ao histórico daquela operadora para aquele item.
Agrupamos as glosas pela ação que cada código pede: corrigir e refaturar, recorrer com documento, recorrer com prontuário ou levar ao contrato. Para cada grupo, medimos o valor glosado e o resultado do recurso no histórico do próprio hospital. Quando uma operadora envia código sem vigência ou mensagem genérica, isso também fica registrado, porque vira pauta da conversa sobre o contrato.
O rascunho do recurso sai com a evidência que a operadora pede para aquele código. Aceitar a glosa ou desistir do recurso é sempre decisão de uma pessoa, que recebe tudo consolidado com a fonte. O que se aprende em cada recurso volta para a conferência da próxima conta.
Por onde começar
- Atualize o de-para de motivos de glosa do sistema com os códigos vigentes da tabela 38.
- Classifique as glosas dos últimos 12 meses por grupo de mensagem, operadora e valor.
- Defina o responsável e a prova de cada grupo, como na tabela deste guia.
- Confira a vigência de cada código na plataforma oficial antes de usá-lo em recurso ou treinamento.
- Leve os códigos recorrentes à negociação com cada operadora, com o valor acumulado.