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Aging de contas a receber hospitalar: como montar e analisar por operadora

O aging de contas a receber mostra o envelhecimento dos recebíveis por faixa de atraso e operadora: como montar a planilha, escolher a data-base, ler as faixas e priorizar a cobrança.

Por Publicado em 9 min de leitura

O que é o aging de contas a receber?

É o relatório que mostra há quanto tempo cada valor a receber está em aberto, agrupado por faixas de dias e por devedor. No hospital, o devedor principal é a operadora de plano de saúde, e o aging se monta por operadora e, quando necessário, por contrato ou plano.

O aging é uma fotografia numa data-base, em geral o último dia do mês. O guia Indicadores do ciclo de receita mostra onde o aging entra no painel do hospital, ao lado do prazo médio de recebimento, da inadimplência e do índice de recebimento.

Dois hospitais podem ter o mesmo prazo médio de recebimento e carteiras muito diferentes; só o aging mostra se o saldo está nos primeiros 30 dias ou concentrado em faturas de seis meses de uma operadora.

O aging do hospital não é o aging de uma empresa comum

Três características da conta hospitalar mudam a montagem do relatório.

O vencimento vem do contrato. A Lei 9.656/1998 exige que o contrato entre operadora e prestador traga os prazos e procedimentos de faturamento e pagamento (art. 17-A, § 2º) [5]. A RN 503/2022, que regula esses contratos, não fixa número de dias para pagamento [6]. Por isso, o vencimento de cada fatura depende do calendário de cada contrato.

Parte do saldo é glosa. O demonstrativo de análise de conta, mensagem do padrão de Troca de Informações na Saúde Suplementar (TISS), informa o que foi pago e o que foi glosado em cada guia [7]. Um valor glosado pode estar em recurso ou ter sido aceito; misturar os dois numa faixa esconde o problema. O guia Demonstrativo de análise de conta e de pagamento explica como ler esse retorno.

O retorno nem sempre chega. A ANS mede, no Painel de Indicadores de Glosa, a proporção de guias sem nenhum valor pago ou glosado 30 dias depois do protocolo de cobrança [4]. Essa guia não é glosa nem atraso de pagamento: é conta sem resposta.

Qual data usar para contar a idade da conta?

A data que conta a idade define o que o aging mede. No hospital, há quatro candidatas:

Data-zeroO que o aging medeQuando usar
Alta ou atendimentoTempo total desde o serviço prestado, incluindo o atraso internoVisão da diretoria; comparação com a HFMA, que conta da alta (internação) ou da data do serviço (ambulatório) [8]
Envio do lote (protocolo TISS)Tempo em poder da operadora, sem o atraso internoCobrança da operadora; o protocolo comprova o recebimento do lote [7]
Vencimento contratualAtraso real em relação ao combinadoRégua de cobrança e conversa com a operadora
Data do demonstrativo da glosaIdade da glosa em recursoGestão de glosas e prazo de recurso

Na prática, vale manter duas visões: pelo vencimento, para cobrar, e pela data de envio, para comparar operadoras com prazos diferentes. O que vem antes do envio (contas com alta e ainda não faturadas) fica fora do aging de faturado e é medido à parte, como explica o guia Contas não faturadas (DNFB).

Na conta hospitalar, o aging de cobrança conta a idade a partir do vencimento do contratoLinha do tempo da conta hospitalar com quatro datas: alta ou atendimento, envio do lote com protocolo TISS, vencimento pelo prazo do contrato e data-base do relatório (fim do mês). Entre a alta e o envio ficam as contas não faturadas (DNFB), fora do aging. Entre o envio e o vencimento, o saldo a vencer. Depois do vencimento, o saldo vencido nas faixas de 1 a 30, 31 a 60, 61 a 90, 91 a 180 e acima de 180 dias. O aging pela data de envio compara operadoras; o aging pelo vencimento orienta a cobrança. Antes de distribuir por faixa, o saldo é separado em quatro situações: sem retorno (pedir o demonstrativo), pago parcial (conciliado com o demonstrativo), glosa em recurso (idade contada da data do demonstrativo) e glosa aceita (sai do saldo e vai para a baixa). Fontes: Lei 9.656/1998, art. 17-A; ANS, Padrão TISS 202609; ANS, Nota Técnica 25/2020; HFMA, MAP Keys. Na conta hospitalar, o aging de cobrança conta a idade a partir do vencimento do contrato Quatro datas da conta e o que cada trecho mede no aging de contas a receber de operadoras Contas não faturadas (DNFB: fora do aging) A vencer (em poder da operadora) Vencido 1–30 · 31–60 · 61–90 · 91–180 · >180 Alta ou atendimento (serviço prestado) Envio do lote (protocolo TISS) Vencimento (prazo do contrato) Data-base (fim do mês) Aging pela data de envio: compara operadoras Aging pelo vencimento: orienta a cobrança Antes de distribuir por faixa, separe a situação do saldo Sem retorno Nenhum valor pago ou glosado: pedir o demonstrativo Pago parcial Saldo conciliado com o demonstrativo Glosa em recurso Idade contada da data do demonstrativo Glosa aceita Sai do saldo e vai para a baixa Fontes: Lei 9.656/1998, art. 17-A; ANS — Padrão TISS 202609, itens 49, 55 e 56; ANS — NT 25/2020; HFMA — MAP Keys AR-1/AR-2. Produzido por Accrua.
Fontes: Lei 9.656/1998, art. 17-A; ANS — Padrão TISS, Componente Organizacional 202609, itens 49, 55 e 56; ANS — Nota Técnica 25/2020/GASNT; HFMA — MAP Keys AR-1 e AR-2. Produzido por Accrua.

A planilha de aging tem uma linha por fatura e 14 colunas

A planilha de aging parte de uma linha por fatura (ou por guia, quando a operadora paga guia a guia), nunca uma linha por operadora. A tabela abaixo traz a estrutura da planilha modelo:

ColunaConteúdoComo preencher
OperadoraNome e registro na ANSCadastro do contrato
Contrato ou planoQuando a operadora tem prazos diferentes por produtoCadastro do contrato
Nº da fatura e do loteIdentificação da cobrançaSistema de faturamento
Protocolo e data de envioComprovante de recebimento do loteRetorno TISS da operadora
Data da alta ou do atendimentoData do serviçoProntuário ou sistema de gestão
Vencimento contratualData de envio + prazo do contratoCalendário de pagamento do contrato
Valor faturadoValor apresentadoFatura
Valor pagoSoma dos pagamentos já conciliadosConciliação bancária e demonstrativo
Valor glosado em recursoGlosa contestada, aguardando respostaControle de recursos
Valor glosado aceitoGlosa que o hospital decidiu não contestarControle de glosas
Saldo em abertoFaturado − pago − glosa aceitaFórmula
SituaçãoSem retorno · Pago parcial · Glosa em recursoFórmula ou seleção
Dias em abertoData-base − vencimento (negativo = a vencer)Fórmula
FaixaA vencer · 1–30 · 31–60 · 61–90 · 91–180 · Acima de 180Fórmula a partir dos dias

A data-base fica numa célula única, usada por todas as fórmulas. A glosa aceita sai do saldo em aberto e vai para a baixa contábil: deixá-la no aging faz a carteira parecer pior e esconde a perda definitiva. O guia Contas a receber hospitalar trata de provisão e baixa.

Com a base pronta, a visão de leitura é uma tabela dinâmica: operadoras nas linhas, faixas nas colunas, valores e percentuais do total. A HFMA recomenda que as faixas de cada pagador somem 100% do seu saldo faturado [8]. O percentual permite comparar operadoras de tamanhos diferentes.

Por que essas faixas. Até 90 dias, as faixas seguem o modelo de 30 em 30 dias que a HFMA também usa, e 90 dias é o corte da inadimplência da Anahp [1][8]. A faixa de 91 a 180 dias separa o atraso longo do saldo antigo; a HFMA usa 91–120 e “mais de 120” [8]. O hospital pode ajustar os cortes ao calendário dos seus contratos, desde que mantenha os mesmos cortes ao longo do tempo.

Como ler as faixas de atraso do aging?

Cada faixa de atraso do aging pede uma ação diferente, e a situação do saldo pesa tanto quanto a idade.

Faixa (pelo vencimento)Leitura típicaAção
A vencerCarteira dentro do prazoConferir protocolo de todos os lotes e se a operadora já emitiu o demonstrativo
1–30 diasAtraso recente, muitas vezes operacionalConfirmar recebimento do lote, pedir o demonstrativo pelo protocolo e conferir a conciliação [7]
31–60 diasAtraso que se repete ou conta sem análiseContato formal com o relacionamento da operadora, com a lista de faturas e protocolos
61–90 diasRisco de virar inadimplênciaComunicação escrita citando a cláusula de pagamento do contrato; escalar para a gestão
91–180 diasInadimplência no conceito da Anahp [1]Reunião de conciliação de saldos, notificação e escalada prevista no contrato
Acima de 180 diasSaldo antigo, de recuperação incertaDecisão da diretoria: negociação, medidas formais ou provisão

Três leituras completam a análise:

  • Saldo sem retorno. Fatura vencida sem nenhum valor pago ou glosado aponta para lote não processado. O primeiro passo é pedir o demonstrativo pelo protocolo, antes de cobrar o pagamento [4][7].
  • Glosa em recurso. Deve ter aging próprio, contado da data do demonstrativo, e ser acompanhada contra o prazo de resposta do contrato. A RN 503/2022 exige que o contrato preveja prazos de contestação, resposta e pagamento após reversão [6]. Veja o guia Gestão de glosas.
  • Concentração. Uma operadora pequena com saldo grande acima de 90 dias pesa mais no risco do que o percentual geral sugere.

A prioridade da cobrança sai do cruzamento entre valor, faixa e situação

A idade sozinha não define a prioridade: um saldo alto de 45 dias pode valer mais atenção que um pequeno de 200. Uma ordem prática:

  1. Saldo alto nas faixas de 31 a 90 dias, que logo vira inadimplência.
  2. Faturas sem retorno em qualquer faixa vencida, que pedem reenvio ou demonstrativo.
  3. Glosas em recurso com prazo de resposta vencido, cobradas com a cláusula do contrato.
  4. Saldo acima de 90 dias por operadora, tratado em reunião de conciliação, e não fatura a fatura.

A cobrança segue o caminho do contrato. O guia Atraso de pagamento da operadora descreve os direitos do hospital e a escalada possível.

Quanto da carteira dos hospitais Anahp passa de 90 dias?

Em 2024, as faturas acima de 90 dias equivaliam a 61,53% de um mês médio de faturamento nos hospitais Anahp [1]. É a referência pública mais próxima do aging no Brasil, o indicador de inadimplência da Anahp: faturas em aberto há mais de 90 dias divididas pela média do faturamento mensal dos últimos 12 meses [1].

Indicador (hospitais Anahp)ValorPeríodoFonte
Inadimplência (faturas > 90 dias ÷ faturamento médio mensal de 12 meses)61,53%2024[1]
Índice de recebimento (recebido ÷ faturado das operadoras, últimos 5 anos)88,61%2024[1]
Prazo médio de recebimento (da nota fiscal ao pagamento)77,35 dias2025[2]
Prazo médio de recebimento73,84 dias1º trimestre de 2026[3]
Prazo médio de pagamento a fornecedores48,30 dias2025[2]

Em outras palavras, o saldo acima de 90 dias equivalia a cerca de 0,6 mês de faturamento, nos 119 hospitais que informaram dados ao Observatório [1]. Para comparar, o hospital calcula a mesma razão com o seu aging: soma das faixas acima de 90 dias dividida pela média mensal faturada nos últimos 12 meses.

São médias de hospitais associados, referência de tendência e não meta. O guia Prazo médio de recebimento hospitalar detalha o cálculo e a série histórica.

Os erros mais comuns na montagem do aging

  • Contar a idade pela emissão da nota para todas as operadoras, ignorando prazos contratuais diferentes.
  • Deixar a glosa aceita no saldo, o que infla as faixas antigas.
  • Não conciliar pagamentos parciais, mantendo faturas abertas pelo valor cheio (veja o guia Conciliação de pagamentos de operadoras).
  • Mudar os cortes das faixas de um mês para o outro.
  • Não fechar com a contabilidade: o total do aging deve bater com o saldo de contas a receber de convênios na data-base.
  • Tratar o aging só como relatório de cobrança. O saldo das faixas antigas é caixa parado que o hospital financia; o guia Capital de giro hospitalar mostra como o prazo de recebimento pesa nesse financiamento.

O que vemos na operação

Na Accrua, o aging é montado a partir da conciliação, fatura por fatura. Os agentes conciliam cada demonstrativo com a conta enviada e classificam o saldo em aberto pela situação: a vencer, sem retorno da operadora, glosa em recurso ou glosa aceita. Só depois entram as faixas de idade, porque cada situação pede uma ação diferente.

Para a fatura sem demonstrativo, o acompanhamento de status sinaliza quando cabe pedir o retorno ou reenviar. Para a glosa em recurso, o prazo de resposta previsto no contrato fica controlado, e o recurso sai com a evidência que a operadora pede. Aceitar a glosa e baixar o saldo é decisão de uma pessoa, registrada em trilha auditável.

Quando o saldo das faixas mais antigas pesa no caixa, a Receita Garantida pode colocar no caixa do hospital, no prazo de que ele precisa, o valor da produção elegível. A leitura de risco por operadora, plano e tipo de conta, com prazo histórico, taxa de glosa e recurso aceito, é a mesma que organiza a prioridade de cobrança.

Por onde começar

  1. Defina a data-base (último dia do mês) e a data-zero de cada visão: vencimento para cobrar, envio para comparar.
  2. Cadastre o prazo de pagamento de cada contrato, para calcular o vencimento de cada fatura.
  3. Monte a base com uma linha por fatura, separando pago, glosa em recurso e glosa aceita.
  4. Gere a tabela por operadora e faixa, em valor e percentual, e feche o total com a contabilidade.
  5. Leve a lista acima de 60 dias à reunião mensal com cada operadora, com faturas e protocolos.

Perguntas frequentes sobre aging de contas a receber

O que é aging de contas a receber?

É o relatório que distribui o saldo em aberto por faixas de dias, como a vencer, 1–30, 31–60, 61–90 e acima de 90, numa data-base. No hospital, monta-se por operadora e separa o saldo sem retorno, a glosa em recurso e a glosa aceita.

Como calcular os dias de atraso no aging?

Subtraia a data de vencimento da data-base. Resultado negativo significa fatura a vencer; positivo, dias de atraso. No hospital, o vencimento é a data de envio do lote mais o prazo de pagamento do contrato com a operadora.

Qual é o prazo que a operadora tem para pagar o hospital?

Nenhuma norma da ANS fixa prazo máximo. A Lei 9.656/1998, art. 17-A, exige que o contrato traga os prazos de faturamento e pagamento, e a RN 503/2022 não define número de dias. O vencimento usado no aging vem do contrato.

A partir de quantos dias a conta é considerada inadimplente?

Não há corte legal. A Anahp considera, no seu indicador de inadimplência, as faturas em aberto há mais de 90 dias, divididas pela média do faturamento mensal dos últimos 12 meses. Em 2024, a razão foi de 61,53% nos hospitais associados.

A glosa deve entrar no aging?

A glosa em recurso, sim, mas numa situação própria e com idade contada do demonstrativo. A glosa aceita não: ela sai do saldo e vai para a baixa. Misturar as duas infla as faixas antigas e esconde a perda definitiva.

Fontes

  1. Anahp — Observatório Anahp 2025 (dados de 2024; definições dos indicadores de inadimplência e de índice de recebimento).
  2. Anahp — Balanço Observatório Anahp, 9ª edição, março de 2026 (dados de 2025), gráficos 10 e 11.
  3. Anahp — Balanço Observatório Anahp, junho de 2026 (1º trimestre de 2026), gráfico 9.
  4. ANS — Nota Técnica nº 25/2020/GASNT (Painel de Indicadores de Glosa), itens 58 a 67 (guias sem retorno após 30 dias).
  5. Planalto — Lei nº 9.656/1998, art. 17-A, § 2º (incluído pela Lei nº 13.003/2014), texto compilado.
  6. ANS — Resolução Normativa nº 503/2022 (contratos entre operadoras e prestadores), arts. 4º e 14.
  7. ANS — Padrão TISS, Componente Organizacional 202609, itens 49, 55 e 56.
  8. HFMA (Healthcare Financial Management Association) — MAP Keys, Account Resolution: AR-1 e AR-2 (Aged A/R as a Percentage of Billed A/R), consulta em 17/10/2026.