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Guias · Glosa

Gestão de glosas: processo, responsáveis e indicadores

Da leitura do demonstrativo à correção na origem. O processo completo de gestão de glosas, com papéis, rotinas, prazos e indicadores.

Por Publicado em 10 min de leitura

O que é gestão de glosas?

Gestão de glosas é o conjunto de rotinas, responsáveis e indicadores com que o hospital trata cada glosa e impede que ela se repita. Começa no demonstrativo da operadora e termina com a causa corrigida na origem.

A glosa é a recusa total ou parcial, pela operadora de plano de saúde, do pagamento de itens ou de uma conta apresentada pelo hospital. O conceito, os tipos e o que a lei diz estão no guia pilar Glosa hospitalar. Aqui o foco é o processo: quem faz o quê, em que ordem e como medir.

O processo em seis etapas, do demonstrativo à origem

A gestão de glosas tem seis etapas encadeadas, e cada uma entrega o insumo da seguinte. O fluxo usa as mensagens do padrão de Troca de Informação de Saúde Suplementar (TISS), obrigatório pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) na troca de dados entre hospital e operadora [1].

Gestão de glosas: seis etapas, do demonstrativo à correção na origem Fluxo em seis etapas. 1 Leitura e conciliação do demonstrativo de análise de conta do padrão TISS. 2 Triagem por operadora, motivo da tabela 38 da TUSS, valor e prazo. 3 Análise: glosa administrativa com o faturamento, glosa técnica com a auditoria médica ou de enfermagem. 4 Recurso pela mensagem TISS, com protocolo. 5 Acompanhamento da resposta e do pagamento do valor revertido, com baixa da glosa aceita. 6 Correção na origem: cada motivo recorrente vai para a área onde nasceu, com dono e prazo. Uma seta de retroalimentação liga a etapa 6 às áreas de origem (recepção, autorização, prontuário, faturamento), que geram a próxima conta enviada. Fonte: ANS — Padrão TISS, Componente Organizacional 202609 (itens 33, 51, 55 e 56); RN 503/2022, art. 14. Produzido por Accrua. Gestão de glosas: seis etapas, do demonstrativo à correção na origem O ciclo só fecha quando a causa de cada glosa volta para a área onde nasceu Origem Recepção, autorização, prontuário, faturamento 1Leitura e conciliação Demonstrativo de análise de conta (TISS) 2Triagem Operadora, motivo (tab. 38), valor e prazo 3Análise Administrativa: faturamento Técnica: auditoria 4Recurso Mensagem TISS de recurso com protocolo 5Acompanhamento Resposta, pagamento do revertido, baixa do aceito 6Correção na origem Motivo recorrente → área, dono e prazo retroalimentação conta enviada Fonte: ANS — Padrão TISS, Componente Organizacional 202609 (itens 33, 51, 55 e 56); RN 503/2022, art. 14. Produzido por Accrua.
Fonte: ANS — Padrão TISS, Componente Organizacional 202609 (itens 33, 51, 55 e 56) e RN 503/2022, art. 14 · fluxo da gestão de glosas em seis etapas. Produzido por Accrua.
Ver as etapas em tabela
EtapaO que acontece
1. Leitura e conciliaçãoDemonstrativo de análise de conta (TISS) conferido contra o enviado e o pago
2. TriagemItens classificados por operadora, motivo (tabela 38), valor e prazo
3. AnáliseAdministrativa: faturamento · Técnica: auditoria médica ou de enfermagem
4. RecursoMensagem TISS de recurso, com protocolo
5. AcompanhamentoResposta, pagamento do valor revertido, baixa da glosa aceita
6. Correção na origemMotivo recorrente volta à área de origem (recepção, autorização, prontuário, faturamento), com dono e prazo
  1. Leitura e conciliação. O demonstrativo de análise de conta lista as guias do lote e, nas analisadas, só os itens glosados, cada um com o código do motivo da tabela 38 da Terminologia Unificada da Saúde Suplementar (TUSS) [1][7]. A equipe confere o demonstrativo contra o que enviou e contra o demonstrativo de pagamento.
  2. Triagem. Cada item é classificado por operadora, motivo, valor e prazo de recurso. A glosa procedente (erro do hospital) se corrige e não se contesta; as demais são priorizadas por valor e vencimento.
  3. Análise. A glosa administrativa (cadastro, autorização, código, valor, prazo) vai para o faturamento; a técnica (pertinência clínica), para a auditoria médica ou de enfermagem. A saída é a decisão de recorrer ou aceitar, com a prova reunida.
  4. Recurso. O hospital contesta item a item pelo padrão TISS, que prevê quatro mensagens (recurso, protocolo, solicitação de status e resposta); o protocolo comprova o recebimento [1]. Veja o guia Recurso de glosa. Quando a glosa técnica vai para reunião com o auditor da operadora, o acordo só vale se ficar registrado em ata assinada e voltar ao recurso no padrão TISS. O guia Como negociar com o auditor da operadora traz a técnica e um modelo de ata.
  5. Acompanhamento. Status consultado, resposta registrada e valor revertido conferido no pagamento. O que não foi revertido é baixado como glosa aceita, com decisão registrada.
  6. Correção na origem. Cada motivo recorrente vai para a área onde nasceu, com plano de ação, dono e prazo.

Quem faz o quê? A matriz de responsáveis

Cada etapa precisa de alguém que executa e de alguém que decide. A divisão entre glosa administrativa e técnica, uma convenção do mercado e não uma definição da ANS, orienta a distribuição dos papéis. O guia Tipos de glosa detalha cada tipo.

A matriz é ilustrativa, para adaptar ao hospital. R = executa; A = aprova ou decide; C = é consultado; I = é informado.

EtapaFaturamentoAuditoria médicaAuditoria de enfermagemRecepção e autorizaçãoCoordenação de receitaJurídico e contratos
1. Leitura e conciliaçãoRA
2. TriagemRCCA
3. Análise administrativaRCAC
3. Análise técnicaIRRA
4. RecursoRR (técnica)R (técnica)AC (glosa linear ou contratual)
5. AcompanhamentoRIIAC (recurso sem resposta)
6. Correção na origemR (faturamento)CCR (cadastro e senhas)AR (cláusulas)

Dois cuidados tornam a matriz funcional. Primeiro, um dono por operadora, do demonstrativo ao pagamento, para nenhum recurso se perder entre equipes. Segundo, auditoria técnica com o profissional certo: a Resolução nº 720/2023 do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) inclui recursos de glosa entre as atividades do enfermeiro auditor [8], e a auditoria médica segue as regras do Conselho Federal de Medicina (CFM), tratadas no guia Auditoria médica. Quando o motivo é prontuário incompleto, a correção depende da assistência, e um comitê de glosas costuma ser o fórum.

Prazos: o que a RN 503/2022 exige e como virar calendário

A RN 503/2022 não fixa prazos em dias: o art. 14 manda o contrato prever a rotina de auditoria, as hipóteses de glosa e os prazos de contestação, de resposta e de pagamento após a reversão, com prazo para contestar igual ao da operadora para responder [2].

Também veda impedir o acesso às justificativas das glosas ou a contestação (art. 5º, V e VI), se o faturamento seguir o TISS vigente [2]. Detalhes no guia Prazo para recurso de glosa.

O prazo do contrato vira calendário interno. Exemplo ilustrativo, para um contrato hipotético com 30 dias para recurso:

Marco internoDia, a partir do demonstrativo
Leitura e conciliaçãoAté o dia 3
Triagem, com prazo de cada itemAté o dia 5
Análise e provaAté o dia 20
Recurso enviado, com protocoloAté o dia 25
Cobrança da respostaFim do prazo de resposta (igual ao de contestação)

Perder o prazo tem código próprio na tabela 38 da TUSS: 2909, “prazo para solicitação de recurso de glosa prescrito” [7]. A ANS discute uma nova norma de contratos (Consulta Pública 170/2026, encerrada em 03/07/2026); até 17/10/2026 a resolução final não havia sido publicada [9].

Quais indicadores acompanhar e o que cada fonte mede?

Os indicadores medem quanto é glosado, quanto se recupera e quanto tempo o dinheiro fica parado. A comparação só vale com o mesmo numerador e denominador da fonte. Os números de hospitais são da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp).

Indicador (fonte da definição)FórmulaReferência
Glosa inicial gerencial (Anahp [4])Valores glosados ainda em negociação ÷ valores a receber das operadoras15,89% (2024) e 15,93% (2025) [3][4]
Glosa aceita (Anahp [3])Glosa aceita como perda ÷ receita bruta de convênios1,72% (2025); 1,61% no 1º tri 2026, contra 1,66% no 1º tri 2025 [3][10]
Glosa inicial e final (ANS [5])Primeiros (ou últimos) valores de glosa nas guias fechadas ÷ valor informado nelas × 100Por operadora
Tempo médio de pagamento (ANS [5])Média de dias entre o protocolo de cobrança e o último pagamento de cada guia fechadaPor operadora
Guias sem retorno após 30 dias (ANS [5])Guias sem valor pago nem glosado 30 dias após o protocolo ÷ guias enviadas × 100Por operadora
Proporção de glosas (ANS, PQO 4.4, ano-base 2024 [6])0,75 × (valor glosado ÷ valor informado) + 0,25 × (prestadores com glosa ÷ prestadores com troca TISS)Nota máxima no percentil 15 ou abaixo do segmento
Taxa de reversão (interno)Valor recuperado ÷ valor recorrido, só com prazo de recurso encerradoMeta pelo histórico
Recurso fora do prazo (interno)Glosa com prazo vencido sem recurso ÷ glosa inicialDeve tender a zero
Reincidência por motivo (interno)Glosa do mesmo código da tabela 38 no mês ÷ média dos 3 meses anterioresMede o efeito da etapa 6

Na ANS, guia fechada é aquela em que pago mais glosado é igual ou maior que o informado. A ANS não recebe o motivo das glosas, então o painel não separa administrativa de técnica [5].

Não divida os números da Anahp: as bases diferem, e em 2022 a glosa aceita usava a receita líquida total [3]. A perda real supera a glosa aceita, porque os hospitais também aceitam descontos em acordos [3]. Fórmulas e metas estão no guia Índice de glosa; os momentos da glosa, em Glosa inicial, final e aceita; os números do setor, em Dados do setor.

A correção na origem fecha o ciclo

Sem a etapa 6, o hospital recorre todo mês da mesma falha. A regra é ligar cada código da tabela 38 à área onde o erro nasce, com dono e meta.

Código da tabela 38 da TUSS [7]Área de origem e donoAção na origem
1001 — Número da carteira inválidoRecepçãoConferir carteira e elegibilidade no agendamento e na admissão
1414 — Validade da senha expiradaCentral de autorizaçõesAlerta de vencimento e pedido de prorrogação antes do prazo
3292 — Quantidade acima da autorizadaAutorização e enfermagemConferir a quantidade autorizada antes do uso
3217 — Sem justificativa ou justificativa insuficienteCorpo clínico e enfermagemRegistrar a justificativa clínica no atendimento
3209 — Procedimento ou item em duplicidadeFaturamentoRegra de crítica no sistema antes do envio
3214 — Cobrança fora do prazo do contratoFaturamentoControle do prazo de envio por operadora

Veja Motivos de glosa e Códigos de glosa TISS. Motivo contratual, como glosa linear, se corrige na negociação (RN 503/2022: o que o contrato com a operadora precisa dizer).

O que vemos na operação

Na Accrua, a gestão de glosas começa no demonstrativo e termina na origem, como descreve este guia. Os agentes conciliam cada demonstrativo com a conta enviada, classificam a glosa pelo código da tabela 38 e organizam a fila pelo prazo de contestação previsto no contrato, para que nenhum recurso fique para trás por vencimento.

Na matriz de responsáveis, a divisão está escrita no contrato com o hospital. Os agentes rascunham o recurso com a evidência que a operadora pede e acompanham status e prazo de resposta. Aceitar a glosa ou desistir do recurso é decisão de um faturista ou auditor, que recebe tudo consolidado com a fonte: cláusula, tabela, regra da operadora e trecho do prontuário. Cada ação, de agente ou de pessoa, fica em trilha auditável.

O fechamento do ciclo é a correção na origem. Quando um mesmo código se repete, a regra que o explica passa a ser conferida antes do envio, no cruzamento da conta com o contrato e o histórico daquela operadora. O que se aprende num recurso volta para a próxima conta.

Por onde começar

  1. Mapeie o fluxo atual nas seis etapas e marque onde falta responsável.
  2. Monte a matriz de responsáveis, com um dono por operadora.
  3. Transforme o prazo de cada contrato em calendário interno, com folga antes do vencimento do recurso.
  4. Escolha cinco indicadores com fórmula escrita: glosa inicial, glosa final, taxa de reversão, recurso fora do prazo e reincidência por motivo.
  5. Leve os três motivos mais caros do mês para a área de origem, com plano de ação e prazo.

Perguntas frequentes sobre gestão de glosas

O que é gestão de glosas?

É o processo que vai da leitura do demonstrativo de análise de conta à correção da causa da glosa na área onde ela nasceu, passando por triagem, análise, recurso e acompanhamento do pagamento.

Quem é responsável pela gestão de glosas no hospital?

A condução costuma ficar com a coordenação de faturamento ou de receita. A glosa administrativa fica com o faturamento, a técnica com a auditoria médica ou de enfermagem, e a correção na origem envolve recepção, autorização e assistência.

Qual é o prazo para tratar uma glosa?

A RN 503/2022 não fixa prazo em dias. O contrato deve prever o prazo de contestação, o de resposta da operadora (igual ao de contestação) e o de pagamento após a reversão.

Quais indicadores usar na gestão de glosas?

Glosa inicial, glosa final ou aceita, taxa de reversão, recurso fora do prazo e reincidência por motivo, por operadora. Para comparar com a Anahp, use a mesma base: valores a receber na glosa inicial e receita bruta de convênios na glosa aceita.

A ANS publica indicadores de glosa por operadora?

Sim. O Painel de Indicadores de Glosa mostra glosa inicial, glosa final, tempo médio de pagamento e guias sem retorno após 30 dias, sem separar glosa administrativa de técnica.

Fontes

  1. ANS — Padrão TISS: Componente Organizacional, versão 202609 (setembro de 2026), itens 33, 51, 55 e 56.
  2. ANS — Resolução Normativa nº 503, de 30 de março de 2022 (contratos entre operadoras e prestadores), arts. 5º, V e VI, e parágrafo único, e 14.
  3. Anahp — Balanço Observatório Anahp, 9ª edição, março de 2026 (dados de 2025).
  4. Anahp — Observatório Anahp 2025 (dados de 2024; definição da glosa inicial gerencial).
  5. ANS — Nota Técnica nº 25/2020/GASNT/DIRAD-DIDES/DIDES (Painel de Indicadores de Glosa), itens 11 a 60.
  6. ANS — Programa de Qualificação de Operadoras, ano-base 2024: indicador 4.4, Proporção de Glosas de Pagamentos a Prestadores de Serviços de Saúde.
  7. ANS — Terminologia TUSS, tabela 38 (mensagens do padrão TISS), versão 202607, planilha oficial “Demais terminologias” da ANS, conferida em 18/10/2026.
  8. Conselho Federal de Enfermagem — Resolução Cofen nº 720/2023 (enfermeiro auditor), alterada pela Resolução Cofen nº 733/2023.
  9. ANS — Consulta Pública nº 170/2026 e Deliberações da 644ª Reunião da Diretoria Colegiada.
  10. Anahp — Balanço Observatório Anahp, junho de 2026 (1º trimestre de 2026).