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Guias · Glosa

Índice de glosa: fórmula, referência do setor e meta

Como calcular o índice de glosa, comparar por operadora e definir uma meta realista. As fórmulas de glosa inicial e final, os denominadores e os números da Anahp.

Por Publicado em 10 min de leitura

O que é o índice de glosa?

O índice de glosa mede quanto do valor que o hospital cobrou das operadoras de planos de saúde não foi aceito na análise da conta. É o indicador mais citado do ciclo de receita, porque resume em um número o retrabalho, o dinheiro parado e a perda definitiva causados pela glosa.

O problema é que “índice de glosa” pode significar coisas diferentes. A operadora contesta itens na primeira análise (glosa inicial); o hospital recorre de parte deles; uma parcela é revertida e paga; o restante vira perda (glosa final ou glosa aceita). Cada etapa tem um número, e cada número pode ser dividido por uma base diferente. O conceito de glosa, os tipos e os motivos estão no guia pilar Glosa hospitalar; aqui o foco é a medição.

As fórmulas: um indicador, vários denominadores

A tabela reúne as fórmulas mais usadas e a referência pública de cada uma. Use a coluna “Fonte de referência” para saber com qual número externo a sua fórmula pode ser comparada.

IndicadorNumeradorDenominadorFonte de referência
Glosa inicial (gestão interna)Valor glosado na primeira análise da operadoraValor apresentado (cobrado) no períodoGuia Indicadores do ciclo de receita
Glosa inicial gerencial (Anahp)Valores glosados pelas operadoras ainda em fase de negociaçãoValores a receber das operadoras (até 2025); valores recebidos das operadoras no mês (desde 2026)Observatório Anahp [1][2][7]
Glosa aceita contábil (Anahp)Valor glosado que deixa de ser pago após a negociaçãoReceita bruta de convênios (até 2022: receita líquida total)Balanços do Observatório Anahp [2][3]
Glosa final (gestão interna)Valor glosado não revertido depois dos recursosReceita bruta de convênios ou valor apresentado (fixar um)Guia Indicadores do ciclo de receita
Glosa inicial e final (ANS)Valores glosados (inicial ou final) nas guias fechadasValor total informado nas guias fechadasPainel de Glosas da ANS [5]
Proporção de glosas (ANS, avaliação de operadoras)0,75 × (valor glosado ÷ valor informado) + 0,25 × (prestadores com glosa ÷ total de prestadores)Composto (índice ponderado)Programa de Qualificação de Operadoras [4]
Taxa de reversãoValor recuperado no recursoValor recorrido (só glosas com prazo de recurso encerrado)Gestão interna

Três decisões definem a sua fórmula e devem ficar escritas:

  1. Momento. Glosa inicial mede retrabalho e atraso; glosa final mede perda. São indicadores diferentes, e o guia Glosa inicial, final e aceita detalha a diferença.
  2. Base. Valor apresentado, valores a receber ou receita bruta de convênios. Trocar de base muda o resultado sem que nada tenha mudado na operação.
  3. Data de corte. Pela data do atendimento, do envio ou do demonstrativo de análise de conta. A ANS, por exemplo, só considera guias fechadas, em que o valor pago mais o valor glosado cobrem o valor informado [5].

Exemplo de cálculo (ilustrativo)

Os números abaixo são hipotéticos, só para mostrar a conta.

ItemValor (R$)
Valor apresentado às operadoras no mês10.000.000
Glosa na primeira análise1.200.000
Valor recorrido1.000.000
Valor revertido no recurso650.000
Glosa que ficou (1.200.000 − 650.000)550.000
Receita bruta de convênios do mês10.000.000
  • Glosa inicial = 1.200.000 ÷ 10.000.000 = 12,0%.
  • Taxa de reversão = 650.000 ÷ 1.000.000 = 65,0%.
  • Glosa final = 550.000 ÷ 10.000.000 = 5,5%.

Repare que os R$ 200 mil não recorridos entram na glosa final: quem não recorre transforma glosa inicial em perda. O passo a passo do recurso está no guia Recurso de glosa.

Qual é a referência do setor?

A principal referência pública no Brasil é o Observatório Anahp, que reúne indicadores dos hospitais associados à Anahp. Eram 194 associados ao fim de 2025, 199 no 1º trimestre e 203 no 2º trimestre de 2026, em geral de grande porte [2][3][7]. O guia Observatório Anahp explica a publicação e a amostra.

Indicador (hospitais Anahp)20222023202420251º tri 20262º tri 2026
Glosa inicial gerencial (% dos valores a receber das operadoras)—11,89%15,89%15,93%—11,69%**
Glosa aceita contábil (% da receita bruta de convênios)0,78%*1,17%1,96%1,72%1,61%1,35%
Glosa aceita no 1º trimestre de cada ano—0,92%1,87%1,66%1,61%—
Glosa inicial no 2º trimestre de cada ano—9,27%12,45%15,63%—11,69%**
Glosa aceita no 2º trimestre de cada ano—1,32%1,67%1,70%—1,35%

* Em 2022, o denominador era a receita líquida total. A Anahp mudou o cálculo em 2023, e o número de 2022 não se compara com os seguintes [2]. ** Desde 2026, a glosa inicial é dividida pelos valores recebidos das operadoras no mês; não se compara com 2023–2025 [7].

Glosa nos hospitais Anahp: inicial e aceitaDois painéis com escalas e denominadores diferentes. Glosa inicial gerencial, em % dos valores a receber das operadoras: 11,89% em 2023, 15,89% em 2024 e 15,93% em 2025. Glosa aceita contábil, em % da receita bruta de convênios: 0,78% em 2022 (base receita líquida total, não comparável), 1,17% em 2023, 1,96% em 2024, 1,72% em 2025 e 1,61% no 1º trimestre de 2026. Glosa nos hospitais Anahp: inicial e aceita Glosa inicial gerencial% dos valores a receber das operadoras 11,89% 2023 15,89% 2024 15,93% 2025 Glosa aceita contábil% da receita bruta de convênios 0,78% 2022* 1,17% 2023 1,96% 2024 1,72% 2025 1,61% 1º tri 26 * 2022: base receita líquida total (não comparável). 1º tri 2026 se compara com 1º tri 2025 (1,66%).Escalas diferentes: não dividir um indicador pelo outro. Fonte: Anahp, Balanços do Observatório (mar/2026 e jun/2026).
Fonte: Anahp, Balanço Observatório Anahp, 9ª edição (março de 2026) e Balanço de junho de 2026. Glosa inicial gerencial em % dos valores a receber das operadoras; glosa aceita contábil em % da receita bruta de convênios (em 2022, % da receita líquida total). Produzido por Accrua.

Como ler esses números:

  • Glosa inicial e glosa aceita não se dividem. Uma está sobre valores a receber; a outra, sobre a receita bruta de convênios. Dividir 1,72% por 15,93% não dá a “taxa de reversão” do setor, porque as bases são diferentes.
  • Compare trimestre com trimestre. O 1,61% do 1º trimestre de 2026 se compara com o 1º trimestre dos anos anteriores (1,66% em 2025), não com o ano fechado [3]. O 1,35% do 2º trimestre de 2026 se compara com 1,70% do 2º trimestre de 2025 [7].
  • O denominador da glosa inicial mudou em 2026. A Anahp passou de valores a receber para valores recebidos no mês. Os 11,69% do 2º trimestre de 2026 não indicam queda em relação aos 15,63% do 2º trimestre de 2025 [7].
  • A glosa inicial não inclui o que falta faturar. A Anahp ressalva que o indicador não considera os valores a faturar, o que pode tornar os valores a receber ainda maiores [1].
  • A perda real é maior que a glosa aceita. A Anahp observa que os hospitais também aceitam descontos para viabilizar acordos de pagamento [2]. Em pesquisa da entidade com 85 hospitais, a provisão para devedores duvidosos somou R$ 1,8 bilhão em 2024 (R$ 1,4 bilhão em 2023), e as glosas retidas, R$ 5,8 bilhões em 2024[8].
  • A amostra muda. A Anahp passou de 120 hospitais em 2023 para 203 no 2º trimestre de 2026. Em nota sobre os indicadores operacionais, registra que o crescimento afeta os números pela heterogeneidade da amostra [3].

Outra base. O Panorama do Ciclo de Receita 2026, da ZG Soluções, feito com dados das instituições clientes da empresa, registrou glosa inicial média de 8,86% e glosa final de 6,58% [6]. A base e as definições são diferentes das da Anahp, por isso os níveis não se comparam diretamente. Todos os números do setor estão em Dados do setor.

Como comparar o índice de glosa por operadora

A média do hospital esconde a operadora que glosa muito acima das outras. Abrir o índice por operadora é o primeiro passo de qualquer análise.

O que a ANS publica. A ANS mantém um Painel de Glosas, calculado com os dados do padrão TISS, com tempo médio de pagamento, glosa inicial e glosa final por operadora [5]. A fórmula é a soma dos valores glosados nas guias fechadas dividida pela soma do valor informado nessas guias, vezes 100. Ficam fora guias de reembolso, pagamentos em valor preestabelecido e fornecimento direto de itens. A própria ANS registra que não recebe o motivo da glosa, então o painel não separa glosa administrativa de técnica [5].

Além disso, o Programa de Qualificação de Operadoras da ANS (ano-base 2024) usa um indicador de proporção de glosas. Nele, 75% do peso vem da razão entre valor glosado e valor informado, e 25% da proporção de prestadores com alguma glosa [4]. A operadora pontua mais quanto menos glosa: a nota máxima vai para quem fica no percentil 15 ou abaixo do seu segmento [4]. Na negociação, vale saber que a glosa entra na avaliação pública da operadora.

O que o hospital deve montar. Para comparar as operadoras entre si:

CuidadoPor quêComo fazer
Mesma fórmula para todasBases diferentes distorcem a comparaçãoUsar valor apresentado como base da glosa inicial para todas
Só contas fechadasContas sem demonstrativo puxam o índice para baixoConsiderar só guias com demonstrativo de análise de conta recebido
Abertura por motivoO mesmo índice pode ter causas opostasClassificar pelos códigos da tabela 38 da TUSS (padrão TISS)
Volume junto do percentual20% de uma operadora pequena pesa menos que 8% da maiorMostrar valor glosado em reais ao lado do percentual
Janela móvelUm mês isolado oscila com lotes grandesUsar média dos últimos 3 ou 12 meses

Os códigos de motivo seguem o padrão TISS, explicado no guia Padrão TISS.

Como definir uma meta realista

Não existe meta oficial de índice de glosa, nem da ANS nem da Anahp. Copiar um número de mercado como meta tende a falhar por dois motivos: a fórmula do hospital raramente é a mesma da referência, e o perfil de operadoras, porte e complexidade muda o patamar. O caminho mais seguro é derivar a meta do próprio histórico.

  1. Fixe a fórmula. Escreva numerador, denominador e data de corte da glosa inicial e da glosa final.
  2. Calcule a linha de base. Use os últimos 12 meses, por operadora, para não confundir sazonalidade com melhora.
  3. Separe o evitável. Classifique a glosa por motivo e identifique quanto vem de falhas internas (cadastro, autorização, documentação, código).
  4. Defina a redução por motivo, não pelo total. A meta do total é a soma das metas por motivo.
  5. Posicione contra a referência. Compare a glosa final com a glosa aceita da Anahp só se o denominador for a receita bruta de convênios.
  6. Revise a cada trimestre, comparando trimestre com trimestre.

Exemplo ilustrativo (números hipotéticos). Um hospital tem glosa inicial média de 14% sobre o valor apresentado nos últimos 12 meses. A análise por motivo mostra que 5 pontos vêm de falhas de cadastro e autorização. A equipe decide atacar metade dessas falhas em 12 meses: a meta de glosa inicial fica em 11,5% (14 − 2,5). Para a glosa final, com 4% sobre a receita bruta de convênios e taxa de reversão de 50%, a meta combina menos glosa inicial com mais recursos dentro do prazo. A meta sai do diagnóstico, não de um número externo.

O que vemos na operação

Quando lemos o histórico de um hospital, a primeira tarefa é recalcular o índice de glosa com uma fórmula só: o mesmo denominador, o mesmo momento de medição e apenas contas fechadas. Sem isso, a glosa inicial de uma operadora e a final de outra acabam lado a lado no mesmo relatório. Depois, abrimos o índice por operadora e por motivo, que é onde a meta realista aparece.

O Accrua OS mantém essa abertura a partir dos demonstrativos conciliados conta a conta, em todas as contas de convênio. Assim separamos a falha evitável, que se corrige antes do envio, da divergência que precisa de recurso. A meta por motivo vira regra de conferência: o cruzamento com contrato, tabela e histórico de glosa daquela operadora passa a apontar o erro na próxima conta.

Para a diretoria, o resultado é um índice comparável mês a mês e com a referência do setor na mesma fórmula. Cada ação que mexe no número, de agente ou de pessoa, fica em trilha auditável.

Por onde começar

  1. Escreva a fórmula da glosa inicial e da glosa final, com denominador e data de corte, e use sempre a mesma.
  2. Abra o índice por operadora com os últimos 12 meses e mostre o valor em reais ao lado do percentual.
  3. Classifique a glosa por motivo com os códigos da tabela 38 da TUSS.
  4. Meça a taxa de reversão só com glosas cujo prazo de recurso já terminou.
  5. Defina a meta por motivo a partir do histórico e revise a cada trimestre.

Perguntas frequentes sobre índice de glosa

Como calcular o índice de glosa?

Divida o valor glosado pelo valor de referência do período e multiplique por 100. Para a glosa inicial, o mais comum na gestão interna é usar o valor glosado na primeira análise sobre o valor apresentado. Para a glosa final, o valor glosado não revertido sobre a receita bruta de convênios.

Qual é o índice de glosa médio dos hospitais?

Nos hospitais associados à Anahp, a glosa inicial foi de 15,93% dos valores a receber das operadoras em 2025. A glosa aceita foi de 1,72% da receita bruta de convênios. No 2º trimestre de 2026, a glosa aceita foi de 1,35%, contra 1,70% no 2º trimestre de 2025.

Qual é um índice de glosa aceitável?

Não há meta oficial. O mais útil é comparar o hospital com ele mesmo, por operadora e por motivo, e usar a referência da Anahp só quando a fórmula for a mesma.

Por que a glosa inicial é tão maior que a glosa aceita?

Porque parte da glosa inicial é revertida no recurso e na negociação. Além disso, as bases de cálculo são diferentes: valores a receber, no primeiro caso, e receita bruta de convênios, no segundo.

A ANS divulga o índice de glosa das operadoras?

Sim. A ANS mantém um Painel de Glosas com glosa inicial e glosa final por operadora, calculadas sobre o valor informado nas guias TISS fechadas, e usa a proporção de glosas na avaliação de qualidade das operadoras.

Fontes

  1. Anahp — Observatório Anahp 2025 (dados de 2024; definição da glosa inicial gerencial e pesquisa com 85 hospitais).
  2. Anahp — Balanço Observatório Anahp, 9ª edição, março de 2026 (dados de 2025), gráficos 8 e 9.
  3. Anahp — Balanço Observatório Anahp, junho de 2026 (1º trimestre de 2026).
  4. ANS — Programa de Qualificação de Operadoras, ano-base 2024: indicador 4.4, Proporção de Glosas de Pagamentos a Prestadores de Serviços de Saúde.
  5. ANS — Nota Técnica nº 25/2020/GASNT/DIRAD-DIDES/DIDES (Painel de Indicadores de Glosa).
  6. ZG Soluções — Panorama do Ciclo de Receita 2026 (base de clientes da empresa).
  7. Anahp — Balanço Observatório Anahp, 11ª edição, setembro de 2026 (2º trimestre de 2026; mudança de denominador da glosa inicial).
  8. Anahp — “Hospitais apelam por mudanças na relação com as operadoras”, 25/03/2025 (pesquisa com 85 hospitais, jan–fev/2025)