O que é o Observatório Anahp?
O Observatório Anahp é o relatório anual da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) com indicadores de mercado, assistenciais e institucionais, inclusive econômico-financeiros, dos hospitais associados [4]. Os dados vêm do Sistema de Indicadores Hospitalares Anahp, alimentado pelos próprios hospitais [3]. Entre os indicadores estão a glosa e o prazo de recebimento, medidos com definições publicadas pela própria Anahp [1].
A Anahp também publica o Balanço Observatório Anahp, mais curto e trimestral. Ele combina uma seleção dos indicadores dos hospitais com os dados econômico-financeiros das operadoras de planos de saúde, tirados dos dados abertos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e tratados pela consultoria Arquitetos da Saúde [3].
Os dois documentos ficam na área de publicações do site da Anahp, com download mediante cadastro [4]. O que eles medem se encaixa nos indicadores do ciclo de receita, e é por eles que muitos hospitais comparam glosa e prazo de recebimento com o setor.
Observatório e Balanço: periodicidade, amostra e fontes
As duas publicações têm funções diferentes e não devem ser citadas como se fossem a mesma coisa.
| Observatório Anahp | Balanço Observatório Anahp | |
|---|---|---|
| Periodicidade | Anual | Trimestral |
| Período dos dados | Ano anterior completo (a edição 2025 traz dados de 2024) [1] | Trimestre ou ano acumulado mais recente (a 9ª edição, de março de 2026, traz o ano de 2025) [2] |
| Conteúdo | Indicadores de mercado, assistenciais e institucionais, inclusive econômico-financeiros, com as definições de cada um [1][4] | Seleção de indicadores dos hospitais + dados das operadoras + reajustes e custos |
| Hospitais | Associados que informam dados ao sistema (2024: 169 associados, 119 informaram [1]; 2025: 194 associados, 138 informaram, 71,13% [6]) | Média dos associados: 194 em dezembro de 2025, 199 no 1º trimestre e 203 no 2º trimestre de 2026 [2][3][7] |
| Fontes dos dados | Sistema de Indicadores Hospitalares Anahp | Mesmo sistema (hospitais) + dados abertos da ANS tratados pela Arquitetos da Saúde (operadoras) [3] |
| Edições recentes | 2025 e 2026 [4] | 8ª (janeiro de 2026, dados até o 3º tri de 2025), 9ª (março de 2026, ano de 2025), edição de junho de 2026 (1º tri de 2026) e 11ª (setembro de 2026, 2º tri de 2026) [2][3][4][5][7] |
A cada edição, os números do ano anterior podem ser revistos e a amostra muda. Por isso, a regra é citar sempre a edição, o período e o denominador. No Observatório Anahp 2026, a publicação anual mais recente, os números de 2025 coincidem com os do Balanço de março: glosa inicial de 15,93%, glosa aceita de 1,72% e prazo médio de recebimento de 77,35 dias, com dados de 138 dos 194 associados (71,13%) [6]. A 11ª edição do Balanço, de setembro de 2026, traz o 2º trimestre de 2026 e muda o método da glosa inicial [7].
O que os números dos hospitais dizem em 2025 e 2026?
Os hospitais Anahp ganharam eficiência assistencial, mas o caixa piorou: o prazo de recebimento subiu, a glosa inicial ficou no maior patamar da série e a margem caiu [2][3].
| Indicador (média dos hospitais Anahp) | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | 1º tri 2026 | 2º tri 2026 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Glosa inicial (% dos valores a receber das operadoras) | — | 11,89% | 15,89% | 15,93% | — | 11,69%*** |
| Glosa aceita (% da receita bruta de convênios) | 0,78%* | 1,17% | 1,96% | 1,72% | 1,61% | 1,35% |
| Prazo médio de recebimento (dias) | 73,51 | 76,38 | 69,91 | 77,35 | 73,84 | 69,54 |
| Prazo médio de pagamento a fornecedores (dias) | 45,25 | 49,40 | 50,70 | 48,30 | 48,38 | 52,78 |
| Margem EBITDA | 11,26% | 11,89% | 11,68% | 11,05% | 9,45% | 10,60% |
| Taxa de ocupação | 76,64% | 76,85% | 78,97% | 77,79% | 76,85% | — |
| Média de permanência (dias) | 4,29 | 4,10 | 3,99 | 3,76 | 3,72** | 3,78** |
| Convênios na receita bruta | 83,42% | 80,56% | 78,80% | 76,47% | 80,21% | — |
* Em 2022, sobre a receita líquida total (base antiga, não comparável). ** Novo conceito de paciente-dia em 2026. *** A partir de 2026, sobre os valores recebidos das operadoras no mês (novo método, não comparável com 2023–2025). Fontes: [1][2][3][6][7].
Ver os números em tabela
| Período | Prazo médio de recebimento (dias) | Glosa aceita (% da receita bruta de convênios) |
|---|---|---|
| 2021 | 68,56 | — |
| 2022 | 73,51 | 0,78% (base antiga: receita líquida total) |
| 2023 | 76,38 | 1,17% |
| 2024 | 69,91 | 1,96% |
| 2025 | 77,35 | 1,72% |
| 1º tri 2026 | 73,84 | 1,61% |
Três leituras saem da tabela. Primeiro, em 2025, o hospital levou 77,35 dias para receber das operadoras e 48,30 dias para pagar fornecedores, quase 30 dias financiados com caixa próprio ou crédito [2]. Segundo, a despesa total consumiu cerca de 93% da receita líquida em 2024 e 2025 e 95,09% no 1º trimestre de 2026 [2][3]: com margem estreita, cada ponto de glosa sai do resultado. Terceiro, o Observatório Anahp 2025 mostra que o problema vai além da glosa: em 2024, os hospitais receberam 88,61% do que faturaram às operadoras nos cinco anos anteriores, e as faturas com mais de 90 dias em aberto equivaliam a 61,53% do faturamento médio mensal [1].
No 2º trimestre de 2026, o prazo de recebimento foi de 69,54 dias, contra 78,49 no mesmo trimestre de 2025, e a glosa aceita foi de 1,35%, contra 1,70% [7]. O prazo de pagamento a fornecedores foi de 52,78 dias, já com o novo denominador [7].
A glosa da Anahp tem dois denominadores
A Anahp publica dois indicadores de glosa, e cada um tem um denominador próprio. A glosa inicial (gerencial) é o valor glosado pelas operadoras enquanto a conta ainda está em negociação, medido sobre os valores a receber das operadoras [1][2]. A Anahp ressalva que o indicador não considera os valores a faturar, o que pode tornar os valores a receber ainda maiores [1][6]. A partir de 2026, a Anahp passou a dividir a glosa inicial pelos valores recebidos das operadoras no mês: a série de 2026 (11,69% no 2º trimestre) não se compara com a de 2023 a 2025 [7]. A glosa aceita (contábil) é o que o hospital deixa de receber ao fim da auditoria e da negociação, medida sobre a receita bruta de convênios [2].
Daí vêm três erros frequentes. O primeiro é dividir 1,72% por 15,93% para concluir que “o hospital recupera 89% da glosa”: as bases são diferentes e a conta não tem sentido. O segundo é comparar a glosa aceita de 2022 (0,78%) com a de 2023 em diante: até 2022, o denominador era a receita líquida total [2]. O terceiro é tratar a glosa aceita como a perda total. A própria Anahp observa que os hospitais também aceitam descontos em acordos para receber faturas, que não entram no indicador [2]; numa pesquisa com 85 hospitais, a provisão para devedores duvidosos somou R$ 1,8 bilhão em 2024 (R$ 1,4 bilhão em 2023), e as glosas retidas, R$ 5,8 bilhões em 2024[8].
A diferença entre os tipos de glosa está no guia Glosa inicial, final e aceita, e a fórmula para o hospital medir a própria, no guia Índice de glosa.
Quais são as armadilhas de leitura de cada edição?
Os erros na citação dos números da Anahp costumam vir da mistura de séries, períodos ou conceitos. A tabela resume as armadilhas mais comuns.
| Armadilha | O que acontece | Como ler certo |
|---|---|---|
| Prazo de recebimento de 2021 citado como de 2024 | O valor de 68,56 dias é de 2021; o de 2024 é 69,91 dias [1] | Conferir o ano na tabela original |
| Misturar série anual e trimestral | Cada trimestre tem série própria: prazo de recebimento de 75,80 (2023), 72,32 (2024), 74,31 (2025) e 73,84 dias (2026) no 1º trimestre [3] e de 76,64, 70,22, 78,49 e 69,54 dias no 2º trimestre [7] | Comparar trimestre com o mesmo trimestre de anos anteriores |
| Usar o acumulado parcial como resultado do ano | Até o 3º trimestre de 2025, a Anahp apontava glosa inicial de cerca de 18% e prazo de 78,5 dias [5]; o ano fechou em 15,93% e 77,35 dias [2] | Citar sempre a edição e o período |
| Média de permanência de 2026 | Em 2026, paciente-dia passou a contar qualquer paciente assistido no dia hospitalar, inclusive internação e alta no mesmo dia; antes, era o censo da meia-noite [3] | Não comparar 3,72 dias com a série anterior sem ressalva |
| Prazo de pagamento a fornecedores de 2026 | O denominador mudou de receita bruta total para despesas totais (sem depreciação, provisões e despesas financeiras) [3] | Tratar 2026 como início de série |
| Glosa inicial de 2026 | O denominador passou de valores a receber para valores recebidos das operadoras no mês; o 2º trimestre de 2026 ficou em 11,69%, contra 15,63% no 2º trimestre de 2025 [7] | Tratar 2026 como início de série; não ler a diferença como queda da glosa |
| Amostra em crescimento | Os associados passaram de 120 (fim de 2023) para 203 (2º trimestre de 2026); a Anahp alerta que a heterogeneidade afeta os números [2][3][7] | Ler a tendência, não a variação de décimos |
| Média como meta | São médias dos hospitais associados à Anahp, não do setor hospitalar como um todo | Comparar o hospital com ele mesmo, usando a Anahp como contexto |
O prazo médio de recebimento da Anahp é contado a partir da nota fiscal [1] e, por isso, não capta o tempo anterior à emissão, como as janelas de envio impostas pelas operadoras. Para medir o ciclo completo, o hospital precisa somar o tempo entre a alta e o envio da conta. O cálculo está no guia Prazo médio de recebimento hospitalar.
O que os números das operadoras dizem ao hospital
As operadoras médico-hospitalares se recuperaram: em 2025, o resultado líquido foi o maior da série, e no 1º trimestre de 2026 mais de 80% delas tiveram resultado positivo [2][3].
| Operadoras médico-hospitalares | 2023 | 2024 | 2025 | 1º tri 2026 |
|---|---|---|---|---|
| Beneficiários (milhões) | 50,88 | 51,60 | 53,09 | 52,93 |
| Receitas de contraprestações (R$ bilhões) | 272,81 | 304,61 | 336,66 | 86,07 |
| Sinistralidade | 86,8% | 83,4% | 81,5% | 80,8% |
| Resultado líquido (R$ bilhões) | 1,93 | 10,29 | 23,43 | 6,02 |
| Resultado líquido ÷ receitas | 0,71% | 3,38% | 6,96% | 7,00% |
| Operadoras com resultado positivo | 76,3% | 73,3% | 79,2% | 80,4% |
Fonte: dados abertos da ANS tratados pela Arquitetos da Saúde, publicados nos Balanços [2][3]. O percentual de 2023 (76,3%, 426 operadoras) está no Balanço de março de 2026 [2].
Dois detalhes mudam a leitura. O resultado operacional de 2025 foi de R$ 8,78 bilhões (2,61% das receitas); o restante do resultado líquido veio sobretudo de receitas financeiras [2]. E o ganho é concentrado: as dez maiores operadoras têm cerca de 43% dos beneficiários e cerca de 71% do resultado [2]. No 1º trimestre de 2026, a Anahp estima que, sem a provisão extraordinária de uma grande operadora, o resultado do setor seria de cerca de R$ 7,6 bilhões [3].
Esses números não são os mesmos divulgados pela ANS: a série exclui operadoras odontológicas e administradoras de benefícios, e os beneficiários são ajustados pela variação orgânica [2][3]. Ao citar, informe “ANS, via Balanço Observatório Anahp”. A leitura completa está nos guias Resultado das operadoras e Sinistralidade. A série completa está em Dados do setor.
Como usar o Observatório Anahp na gestão do hospital?
Os números da Anahp servem de contexto, não de meta, e têm três usos práticos:
- Calibrar o próprio indicador. Calcule a glosa inicial, a glosa aceita e o prazo de recebimento do hospital com os mesmos denominadores da Anahp. Só assim a comparação faz sentido.
- Preparar a negociação com a operadora. Resultado e sinistralidade das operadoras, junto com o prazo e a glosa do hospital, são argumentos de reajuste e de prazo de pagamento. Abra os dados por operadora, porque a média do setor esconde quem paga pior.
- Pautar o comitê de receita. A cada Balanço, compare a tendência do setor com a do hospital.
O que vemos na operação
Na Accrua, usamos o Observatório Anahp como referência de leitura, e não como meta. Quando comparamos um hospital com a média, o primeiro cuidado é o denominador: a glosa inicial é medida sobre os valores a receber das operadoras até 2025 e sobre os valores recebidos no mês desde 2026, e a glosa aceita, sobre a receita bruta de convênios; o prazo médio de recebimento começa na nota fiscal. Refazemos os indicadores do hospital com a mesma base, o mesmo período e a mesma regra de contagem antes de colocá-los lado a lado.
A média do hospital também esconde a distribuição. No diagnóstico, abrimos glosa e prazo por operadora, plano e tipo de conta, a partir do histórico das contas enviadas. É nessa abertura que aparecem as diferenças que a média junta numa linha só.
Na leitura de cada edição, conferimos o ano, se o número é anual ou trimestral e se a amostra mudou. Um número trimestral comparado com um anual, ou um denominador trocado, muda a conclusão sobre o mesmo hospital.
Por onde começar
- Baixe a edição mais recente do Balanço e do Observatório no site da Anahp e anote período, amostra e denominadores.
- Recalcule os indicadores do hospital com as mesmas definições: glosa inicial sobre valores a receber (ou sobre valores recebidos no mês, para comparar com 2026), glosa aceita sobre receita bruta de convênios, prazo a partir da nota fiscal.
- Separe a série anual da trimestral na planilha do hospital.
- Abra por operadora glosa e prazo de recebimento antes de comparar com a média.
- Revise a comparação a cada Balanço, registrando mudanças de conceito anunciadas pela Anahp.