Quais são as guias TISS e para que serve cada uma?
As guias TISS são os formulários do padrão de Troca de Informações na Saúde Suplementar (TISS) usados para solicitar autorização, cobrar atendimentos e comprovar a presença do beneficiário. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) define o uso de cada guia e a forma de vínculo entre elas no Componente Organizacional do padrão [1]. A estrutura de campos de cada uma está no Componente de Conteúdo e Estrutura, na versão 202511 vigente em setembro de 2026 [2].
O padrão é obrigatório pela Resolução Normativa (RN) 501/2022, e a troca eletrônica deve seguir a versão vigente [3]. A cobrança é de implantação eletrônica obrigatória: as guias seguem em lote, no arquivo XML [1]. As guias em papel fazem parte do Plano de Contingência, usado quando a troca eletrônica é interrompida [1]. A visão geral do padrão está no guia Padrão TISS, e o lugar das guias no processo, no guia Faturamento hospitalar.
| Guia ou anexo | Para que serve | Vínculo [1] |
|---|---|---|
| Guia de consulta | Cobrar consultas eletivas | Não se liga a outras guias |
| Guia de SP/SADT | Pedir autorização e cobrar consultas, exames, terapias e procedimentos fora da internação, ou em paciente internado quando feitos por serviço terceirizado | Campo 3 (guia principal): só solicitação de internação ou outra SP/SADT |
| Solicitação de internação | Pedir autorização de internação hospitalar, hospital-dia ou domiciliar | É a referência das demais guias da internação |
| Solicitação de prorrogação ou complementação | Pedir mais dias de internação ou novos procedimentos | Campo 3: número da solicitação de internação inicial |
| Resumo de internação | Cobrar a internação (hospitalar, hospital-dia ou domiciliar) | Campo 3: número da solicitação de internação |
| Guia de honorários | Cobrar honorários quando o profissional cobra direto | Só pode se ligar à solicitação de internação |
| Anexo de outras despesas | Cobrar gases, medicamentos, materiais, OPME, taxas, aluguéis e diárias | Campo 2: número da SP/SADT ou do resumo de internação |
| Anexos de OPME, quimioterapia e radioterapia | Pedir autorização desses itens e tratamentos | Campo 3: solicitação de internação ou SP/SADT |
| Guia de tratamento odontológico e anexo de situação inicial | Autorizar, cobrar e comprovar tratamento odontológico | Campo 3: guia odontológica anterior ou principal |
| Guia de comprovante presencial | Comprovar, pela assinatura, a presença do beneficiário | Campo 14: guia principal da cobrança |
Guia de SP/SADT: autorização e cobrança fora da internação
A guia de Serviços Profissionais e Serviço Auxiliar de Diagnóstico e Terapia (SP/SADT) é a guia do atendimento sem internação. Ela serve para pedir autorização e para cobrar consultas com procedimentos, exames, terapias e procedimentos em paciente não internado. Em paciente internado, só é usada quando o serviço é terceirizado [1].
Uma consulta com procedimento vai na SP/SADT, e não na guia de consulta, que se limita às consultas eletivas.
O campo 3, “número da guia principal”, só pode trazer o número de uma solicitação de internação ou de outra SP/SADT [1]. A primeira SP/SADT de um atendimento é a principal; guias seguintes do mesmo atendimento apontam para ela. As despesas do procedimento não entram no corpo da SP/SADT: vão no anexo de outras despesas, com o número da SP/SADT no campo 2 [1]. Pedidos de OPME, quimioterapia e radioterapia usam os anexos próprios, com o número da SP/SADT no campo 3 [1]. O passo a passo da autorização está no guia Autorização prévia.
Como funcionam a solicitação e o resumo de internação?
A internação usa duas guias: uma para pedir, outra para cobrar. A solicitação de internação pede a autorização de internação hospitalar, hospital-dia ou domiciliar [1]. O resumo de internação cobra essa internação [1].
A solicitação de internação é a referência de todo o evento. O resumo de internação traz o número dela no campo 3; a guia de honorários e a prorrogação também apontam para ela [1]. Os anexos de OPME, quimioterapia e radioterapia podem se ligar a ela [1].
Para o envio de dados à ANS, as guias de SP/SADT de paciente internado, de honorários e de resumo de internação se ligam pelo número da solicitação de internação. A operadora deve garantir que esse número seja o mesmo em todas as guias do evento [1].
Duas regras evitam retrabalho. A prorrogação ou complementação deve trazer o número da solicitação de internação inicial, mesmo que parte da internação já tenha sido cobrada no resumo [1]. E o tipo de faturamento da conta segue a tabela 55 da TUSS, que tem quatro termos: parcial, final, complementar e total [4]. Internações longas costumam ser cobradas em contas parciais; o tema está no guia Conta parcial.
Honorários: no resumo, na SP/SADT ou na guia de honorários
O lugar do honorário depende de quem cobra. O Componente Organizacional prevê três caminhos [1]:
| Situação | Onde cobrar | Vínculo |
|---|---|---|
| Paciente internado, honorário faturado pelo hospital | No próprio resumo de internação | Campo 3 do resumo: solicitação de internação |
| Paciente internado, profissional cobra direto da operadora | Guia de honorários | Campo 3: solicitação de internação (é o único vínculo permitido) |
| Atendimento em SP/SADT, honorário faturado junto | Quadro de identificação dos profissionais da própria SP/SADT, com o grau de participação | — |
| Atendimento em SP/SADT, profissional cobra direto | Outra guia de SP/SADT | Campo 3: número da SP/SADT principal |
Em todos os casos, cada profissional é identificado pelo grau de participação, da tabela 35 da TUSS. Ela tem códigos para cirurgião (00), primeiro a quarto auxiliar (01 a 04), instrumentador (05), anestesista (06), auxiliar de anestesista (07), consultor (08), perfusionista (09), pediatra na sala de parto (10), auxiliar SADT (11), clínico (12) e intensivista (13) [4].
O grau de participação define a remuneração de cada membro da equipe, conforme o contrato. Outros campos codificados também entram no cálculo do honorário: a via de acesso (tabela 61: única, mesma via ou diferentes vias), a técnica utilizada (tabela 48: convencional, vídeo ou robótica) e o caráter do atendimento (tabela 23: eletivo ou urgência/emergência) [7]. O cálculo de portes, auxiliares e acréscimos está no guia Honorários médicos na conta hospitalar.
O que vai no anexo de outras despesas?
O anexo de outras despesas detalha os itens consumidos no atendimento: gases medicinais, medicamentos, materiais, OPME, taxas, aluguéis e diárias [1]. Ele não tem número próprio e nunca segue sozinho. O campo 2, “número da guia referenciada”, traz o número da SP/SADT ou do resumo de internação a que pertence [1]. O que pode e o que não pode ser cobrado como diária ou taxa está no guia Diárias e taxas hospitalares.
Cada item é classificado pelo código de despesa, da tabela 25 da TUSS: gases medicinais (01), medicamentos (02), materiais (03), diárias (05), taxas e aluguéis (07) e OPME (08) [4]. O código do item vem da tabela 18 (diárias, taxas e gases), 19 (materiais e OPME) ou 20 (medicamentos) [1]. Códigos dessas três tabelas não podem ir na guia de consulta nem na de honorários [1]. O guia Tabela TUSS mostra como consultar cada uma.
O peso desse anexo é alto. Nos hospitais associados à Anahp, diárias e taxas responderam por 24,48% da receita bruta em 2024; medicamentos, por 21,34%; materiais, por 14,31%; e órteses, próteses e materiais especiais (OPME), por 7,61% [5]. Somados, são 67,74%. Para a OPME, as regras de autorização e nota fiscal estão no guia Faturamento de OPME.
Como as guias se ligam entre si
O vínculo entre as guias é feito pelo número que o prestador atribui a cada guia [1]. Um número errado no campo de guia principal ou de guia referenciada deixa itens soltos: o anexo não encontra a guia, o honorário não encontra a internação, e a operadora não fecha a conta.
Ver os vínculos em tabela
| Guia ou anexo | Campo | Aponta para |
|---|---|---|
| Resumo de internação | 3 | Solicitação de internação |
| Guia de honorários | 3 | Solicitação de internação (único vínculo permitido) |
| Solicitação de prorrogação ou complementação | 3 | Solicitação de internação inicial |
| SP/SADT de serviço terceirizado em paciente internado | 3 | Solicitação de internação |
| Anexo de outras despesas (internação) | 2 | Resumo de internação |
| SP/SADT de honorários (profissional que cobra direto) | 3 | SP/SADT principal |
| Anexo de outras despesas (sem internação) | 2 | SP/SADT |
Dentro de cada guia, cada procedimento ou item recebe um número sequencial de referência que não pode se repetir na mesma guia, inclusive no anexo de outras despesas [1]. O recebimento do lote é comprovado pelo número de protocolo, junto com os números de guia do prestador e os gerados pela operadora [1]. No retorno, o demonstrativo de análise de conta lista todas as guias do lote e, nas já analisadas, só os itens glosados [1].
Quais erros de preenchimento mais fazem a conta voltar?
Erros de guia costumam aparecer de dois jeitos: rejeição do lote ou da guia na validação, ou glosa administrativa depois da análise. Os mais ligados às regras do padrão, e como preveni-los:
| Erro | Regra do padrão [1] | Como prevenir |
|---|---|---|
| Anexo de outras despesas sem guia referenciada, ou apontando para a guia errada | O anexo sempre se liga a uma SP/SADT ou a um resumo de internação | Gerar o anexo a partir da guia no sistema, nunca digitado à parte |
| Guia de honorários ligada ao resumo ou à SP/SADT | A guia de honorários só se liga à solicitação de internação | Regra no sistema que só aceita o número da solicitação no campo 3 |
| Número da solicitação diferente entre guias da mesma internação | O número deve ser único por evento e igual em todas as guias | Conferir o número antes de fechar o lote de cada internação |
| Prorrogação apontando para o resumo | A prorrogação aponta para a solicitação inicial | Vincular toda prorrogação à solicitação original |
| Medicamento, material ou taxa na guia de honorários ou de consulta | Tabelas 18, 19 e 20 não cabem nessas guias | Bloquear essas tabelas por tipo de guia no sistema |
| Procedimento com internação cobrado em SP/SADT pelo próprio hospital | SP/SADT de internado só para serviço terceirizado | Revisar o tipo de guia no fechamento da conta |
| Sequencial de item repetido na mesma guia | O sequencial não se repete na guia | Validar o XML antes do envio |
| Grau de participação ausente ou incoerente com a equipe | O honorário exige o grau de participação de cada profissional | Conferir a equipe com a descrição cirúrgica |
Dados da autorização ausentes, código TUSS fora de vigência e item cobrado diferente do autorizado são conferidos na auditoria de contas médicas antes do envio. Os erros de arquivo estão no guia Erros de XML TISS, e a visão completa das causas, no guia Glosa hospitalar.
Vale lembrar uma vedação: por decisão judicial, a operadora não pode exigir o preenchimento da Classificação Internacional de Doenças (CID) nas guias TISS [1].
O que vemos na operação
Na Accrua, o Accrua OS lê a conta inteira antes do envio, e isso inclui o vínculo entre as guias. Conferimos se cada anexo aponta para a guia referenciada, se o honorário está ligado à guia certa, se o número de solicitação bate com o da autorização e se o grau de participação segue a tabela 35 da TUSS. A validação do XML roda de forma automática, sobre o HIS/ERP que o hospital já usa, sem redigitar nada.
No histórico do hospital, separamos as glosas e devoluções ligadas a vínculo das ligadas ao conteúdo, e o valor glosado no anexo de outras despesas do valor glosado nos procedimentos. Como materiais, medicamentos, OPME, diárias e taxas vão no anexo, é ali que conferimos cada item contra o contrato e a tabela vigente.
Também comparamos o fechamento das internações em que o hospital fatura o honorário com o das que têm profissionais cobrando direto. Quando o problema está no cadastro ou no fluxo, corrigimos na origem, para que a próxima conta já saia com as guias ligadas.
Por onde começar
- Mapeie o tipo de guia de cada atendimento do hospital (ambulatório, pronto atendimento, internação, hospital-dia) e confira contra o uso definido pela ANS.
- Parametrize os vínculos no sistema: campo 3 da guia de honorários e da prorrogação só com a solicitação de internação; campo 2 do anexo só com SP/SADT ou resumo.
- Defina, por contrato, quem cobra os honorários de cada equipe: o hospital, no resumo, ou o profissional, na guia de honorários.
- Bloqueie tabelas TUSS incompatíveis com cada tipo de guia e valide o XML antes do envio.
- Meça devoluções e glosas por tipo de guia e por operadora, todo mês, para achar onde o preenchimento falha.