Pular para o conteúdo
Guias · Auditoria

Pré-auditoria de contas hospitalares: como revisar 100% sem travar o faturamento

Regras automáticas para todas as contas e revisão humana onde há risco. Veja como estruturar a pré-auditoria, o que conferir em cada conta e quais indicadores mostram o resultado.

Por Publicado em 10 min de leitura

O que é pré-auditoria de contas?

Pré-auditoria de contas é a conferência da conta hospitalar pelo próprio hospital, depois do fechamento e antes do envio à operadora. Ela verifica se cada item cobrado foi autorizado, registrado no prontuário, codificado e precificado conforme o contrato. É a auditoria retrospectiva feita do lado do hospital, como explica o guia Auditoria de contas médicas.

A diferença para a auditoria da operadora está no momento e no efeito. A operadora audita para decidir o que paga. O hospital audita para que a conta chegue certa. Um erro corrigido antes do envio não vira glosa, não exige recurso e não alonga o prazo de recebimento. A pré-auditoria se soma à auditoria prospectiva (antes do procedimento) e à concorrente (durante a internação), detalhadas no guia Tipos de auditoria.

Por que auditar 100% das contas, e não uma amostra?

Porque a amostra deixa passar o erro pequeno e repetido. Revisar só as contas de maior valor, ou uma fração sorteada, concentra o esforço onde cada conta pesa mais. Mas uma senha vencida, uma quantidade acima da autorizada ou um item em duplicidade aparece em contas de qualquer valor. Somados ao longo do mês, esses erros pesam.

O problema é que revisar manualmente todas as contas costuma ser inviável e atrasa o envio. A saída é separar o trabalho em duas camadas:

  • Camada 1, regras automáticas em 100% das contas. O sistema confere o que é objetivo: elegibilidade, senha e validade, quantidades autorizadas, duplicidade, código TUSS, preço do contrato e prazo de envio.
  • Camada 2, revisão humana por risco. Faturistas, enfermeiros auditores e médicos auditores olham só as contas que as regras sinalizaram, as de alto valor e as de tipos de atendimento com histórico de glosa técnica.

Assim, toda conta passa por conferência, mas só uma parte espera por uma pessoa.

Como funciona o fluxo de pré-auditoria

O fluxo começa no fechamento da conta e termina no demonstrativo da operadora, que realimenta as regras.

Fluxo de pré-auditoria de todas as contas Seis etapas. 1) Fechamento da conta. 2) Regras automáticas em 100% das contas. 3) Triagem por risco: conta sem alerta segue direto para o envio; com alerta ou alto valor vai para revisão humana. 4) Revisão humana por faturamento, enfermeiro auditor ou médico auditor. 5) Correção e envio do lote XML TISS. 6) Demonstrativo de análise de conta: glosa recorrente vira nova regra na etapa 2. Fluxo de pré-auditoria de todas as contas 1Fechamento da conta Itens lançados, autorizações, prontuário e contrato 2Regras automáticas em 100% das contas Senha, quantidade, duplicidade, código TUSS, preço, prazo 3Triagem por risco Com alerta, alto valor ou tipo sensível: revisão humana 4Revisão humana Faturamento, enfermeiro auditor ou médico auditor 5Correção e envio do lote Ajuste na conta ou no registro; lote XML TISS 6Demonstrativo de análise de conta Glosas com código da tabela 38 da TUSS Sem alerta Glosa recorrente vira regra Linha contínua: caminho da conta · Tracejada: retorno para criar regras Fonte: elaboração própria com base no Padrão TISS 202609 (ANS).
Fluxo de pré-auditoria em duas camadas: regras automáticas em 100% das contas e revisão humana nas sinalizadas. Produzido por Accrua com base no Padrão TISS 202609 (ANS).
  1. Fechamento da conta. Depois da alta (ou do fim do período, na conta parcial), a conta reúne itens lançados, autorizações, registros do prontuário e regras do contrato.
  2. Regras automáticas em 100% das contas. Cada conta passa pelas conferências objetivas, por operadora e por tipo de atendimento.
  3. Triagem por risco. Conta sem alerta e abaixo do valor de corte segue direto para o envio. Conta com alerta, de alto valor ou de tipo sensível vai para a fila de revisão.
  4. Revisão humana. O alerta define quem revisa: preço e código com o faturamento; registro de enfermagem com o enfermeiro auditor; justificativa clínica com o médico auditor.
  5. Correção e envio. A conta é ajustada (item incluído, retirado ou corrigido) e segue no lote XML do padrão TISS, com protocolo de recebimento [5].
  6. Demonstrativo e novas regras. Cada glosa recebida tem um código da tabela 38. Motivo recorrente, por operadora, vira regra nova na etapa 2.

O ponto de equilíbrio está na etapa 3. Se o corte manda contas demais para a revisão humana, a fila cresce e a conta atrasa. Se manda de menos, o erro passa. Um modelo treinado no histórico de glosas pode ordenar essa fila por risco e valor; o guia IA para prevenção de glosas mostra como isso funciona na prática.

O que conferir em cada conta?

A tabela abaixo liga cada ponto de conferência à regra que pode ser automatizada, a quem decide quando há alerta e ao código de glosa que a falha costuma gerar. Os códigos são da tabela 38 da TUSS, detalhados no guia Códigos de glosa TISS [6].

Ponto de conferênciaRegra automática (camada 1)Quem decide no alerta (camada 2)Glosa que evita (tabela 38)
Autorização e validadeTodo item que exige senha tem senha; data do atendimento dentro da validadeFaturamento, com a central de autorizações1414 — validade da senha expirada
Quantidade autorizadaQuantidade cobrada ≤ quantidade autorizada (diárias, sessões, OPME)Faturamento; enfermeiro auditor se faltar registro3292 — quantidade acima da autorizada
DuplicidadeMesmo item, data e horário não aparecem duas vezes; período não repetido entre parciaisFaturamento3209 — item em duplicidade; 3232 — período já apresentado em outra parcial
PreçoValor igual ao da tabela do contrato vigente na data do atendimentoFaturamento1705 — valor apresentado a maior
Registro no prontuárioItem cobrado tem checagem, prescrição ou evolução correspondenteEnfermeiro auditor3217 — sem justificativa ou justificativa insuficiente
Justificativa clínicaItem de alto custo ou permanência acima da prevista sinaliza revisãoMédico auditor3040 — glosa técnica
Código e documentaçãoCódigo TUSS ativo; guias e anexos completos, conforme o padrão vigenteFaturamentoRejeição de lote ou glosa administrativa
Prazo de envioConta dentro do prazo contratual de apresentaçãoCoordenação de faturamentoPerda do prazo de cobrança

O quadro é um ponto de partida. Cada operadora tem regras próprias de contrato, e a RN 503/2022 exige que o contrato descreva a rotina de auditoria e as hipóteses de glosa [4]. As regras do hospital devem refletir esse contrato.

Quem faz a revisão humana

A revisão humana segue as normas de cada profissão. Na enfermagem, a auditoria é atividade privativa do enfermeiro dentro da equipe de enfermagem, e o parecer traz o número do Coren [3]. A conferência de checagens, prescrições e anotações é, portanto, tarefa do enfermeiro auditor, não do faturista.

Na auditoria médica, vale a Resolução CFM nº 2.448/2025. O texto oficial marca como suspensos, por decisão no processo nº 1017752-74.2026.4.01.3400, vários dispositivos, entre eles o art. 2º, que definia a auditoria médica como ato privativo do médico [2]. Seguem sem marcação de suspensão o art. 8º, que exige registro no CRM de empresas de auditoria médica, diretores técnicos e auditores, e o art. 15, XV, que atribui ao diretor técnico zelar para que a remuneração de auditores não seja vinculada a glosas [2].

Para a pré-auditoria, o efeito prático é direto. A análise da justificativa clínica fica com o médico auditor; a empresa contratada para auditar contas precisa de registro no CRM; e regras automáticas ou ferramentas de IA preparam a análise, mas não emitem o parecer. O guia IA no faturamento hospitalar detalha esse limite.

Como não travar o faturamento?

A pré-auditoria trava o faturamento quando vira uma fila única, manual e sem prazo. Nos hospitais associados à Anahp, o prazo médio de recebimento, da emissão da nota fiscal ao pagamento, foi de 77,35 dias em 2025 [1]. Esse indicador não inclui o tempo entre a alta e a emissão da conta, que é onde a pré-auditoria atua. Cada dia de conta parada na auditoria se soma a esse prazo.

Quatro práticas reduzem o risco:

  • Regras rodando no lançamento, não só no fechamento. Duplicidade e quantidade podem ser conferidas enquanto o paciente está internado, como na auditoria concorrente.
  • Fila com prazo. Cada conta sinalizada tem um prazo interno de revisão; conta vencida sobe para a coordenação.
  • Corte de valor revisado com dados. O valor a partir do qual toda conta vai para revisão humana é ajustado conforme o resultado: se as contas revisadas quase não têm correção, o corte pode subir.
  • Correção na origem. O achado volta para quem lançou ou registrou, com o motivo, para que o erro não se repita na próxima conta. O guia Auditoria de prontuário mostra como fazer essa devolução.

Indicadores de resultado da pré-auditoria

Os indicadores medem três coisas: quanto do faturamento passa pela conferência, qual o efeito na glosa e quanto tempo a conferência custa. Eles fazem sentido comparados ao próprio histórico do hospital, por operadora e por tipo de atendimento, e não contra uma meta genérica.

IndicadorComo calcularO que mostra
Cobertura das regrasContas que passaram pelas regras automáticas ÷ contas enviadasSe de fato 100% das contas são conferidas
Taxa de alertaContas sinalizadas ÷ contas conferidasSe as regras estão calibradas (alerta demais congestiona a fila)
Taxa de correçãoContas revisadas com ajuste ÷ contas revisadasSe a revisão humana está indo para as contas certas
Valor ajustadoValor incluído, retirado ou corrigido ÷ valor das contas conferidasTamanho do erro que seria glosado ou deixado de cobrar
Glosa inicial por motivoValor glosado por código da tabela 38 ÷ valor apresentado, por operadoraSe as falhas que as regras cobrem estão caindo
Aceitação na primeira análiseValor aceito sem glosa ÷ valor apresentadoEfeito conjunto da pré-auditoria
Tempo de pré-auditoriaDias entre o fechamento da conta e a liberação para envioSe a conferência está atrasando o faturamento
Glosa recorrente sem regraMotivos que se repetem no demonstrativo sem regra correspondenteOnde criar a próxima regra

Na comparação com o setor, use os denominadores certos. A glosa inicial da Anahp (15,93% em 2025) é calculada sobre os valores a receber das operadoras; a glosa aceita (1,72% em 2025) é calculada sobre a receita bruta de convênios [1]. Os dois não se dividem um pelo outro. O guia Índice de glosa explica cada fórmula, e o guia Prazo médio de recebimento hospitalar mostra como acompanhar o prazo.

O que vemos na operação

Na Accrua, a pré-auditoria lê todas as contas de convênio, não uma amostra, e é feita em duas camadas. Na primeira, o Accrua OS confere a conta inteira de forma automática: prontuário, prescrição, itens, OPME e pacote, cruzados com o contrato, a tabela vigente, a regra de autorização e o histórico de glosa daquela operadora para aquele item.

Na segunda, só as contas sinalizadas vão para um faturista ou auditor com formação ou especialização em enfermagem, que recebe cada alerta com a fonte. O que muda o valor da conta é decidido por essa pessoa. As contas sem alerta seguem para validação do XML e transmissão, e é isso que evita trocar glosa por prazo, o risco que este guia descreve.

Medimos a pré-auditoria pelo que ela segura e pelo que ela libera: alertas por conta, ajustes feitos e tempo entre fechamento e envio. Quando o mesmo alerta se repete, o ajuste vai para a origem, e o que se aprende em cada recurso volta para as regras da próxima conta.

Por onde começar

  1. Meça a cobertura atual: quantas contas passam por alguma conferência antes do envio e quantos dias isso leva.
  2. Liste os motivos de glosa dos últimos meses por operadora, a partir dos demonstrativos, e escolha os mais frequentes para virar as primeiras regras.
  3. Defina a triagem: o que manda uma conta para revisão humana (alerta, valor, tipo de atendimento) e quem revisa cada tipo de alerta.
  4. Crie prazo para a fila de revisão e acompanhe semanalmente o tempo de pré-auditoria.
  5. Revise as regras a cada ciclo de demonstrativos, criando regra nova para cada glosa recorrente sem cobertura.

Perguntas frequentes sobre pré-auditoria de contas

O que é pré-auditoria de contas hospitalares?

É a conferência da conta pelo próprio hospital depois do fechamento e antes do envio à operadora. Verifica autorização, registro no prontuário, quantidades, duplicidade, código, preço, documentação e prazo, para corrigir o que viraria glosa.

Qual a diferença entre pré-auditoria e auditoria da operadora?

A pré-auditoria é feita pelo hospital para enviar a conta certa. A auditoria da operadora decide o que é pago e o que é glosado, e o resultado chega no demonstrativo de análise de conta, com o código de cada motivo.

É possível auditar 100% das contas sem aumentar a equipe?

O caminho mais usado é dividir o trabalho: regras automáticas conferem todas as contas, e a equipe revisa só as sinalizadas, as de alto valor e as de tipos com histórico de glosa técnica. O tamanho da equipe depende da taxa de alerta.

Quem pode fazer a pré-auditoria?

A conferência administrativa pode ser feita pelo faturamento. A análise dos registros de enfermagem é do enfermeiro auditor, pela Resolução Cofen nº 720/2023. A análise da justificativa clínica fica com o médico auditor; empresas de auditoria médica precisam de registro no CRM.

A pré-auditoria atrasa o envio da conta?

Pode atrasar, se for manual e sem prazo. Por isso o tempo entre o fechamento e a liberação da conta deve ser medido junto com a glosa. Regras rodando durante a internação e fila com prazo reduzem esse risco.

Quais indicadores mostram se a pré-auditoria funciona?

Cobertura das regras, taxa de alerta, taxa de correção, valor ajustado, glosa inicial por motivo, aceitação na primeira análise e tempo de pré-auditoria, sempre comparados ao histórico do próprio hospital por operadora.

Fontes

  1. Anahp — Balanço Observatório Anahp, 9ª edição, março de 2026 (dados de 2025; 194 associados ao fim de 2025); definição de glosa inicial sobre valores a receber das operadoras conforme o Observatório Anahp 2025.
  2. Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 2.448, de 23 de outubro de 2025 (DOU 04/11/2025), texto oficial com a marcação dos dispositivos suspensos no processo nº 1017752-74.2026.4.01.3400, consultado em 17/10/2026; arts. 2º, 8º, 12 e 15.
  3. Conselho Federal de Enfermagem — Resolução Cofen nº 720/2023 (enfermeiro auditor), alterada pela Resolução Cofen nº 733/2023.
  4. ANS — Resolução Normativa nº 503/2022, arts. 5º, V e VI, e 14.
  5. ANS — Padrão TISS: Componente Organizacional, versão 202609 (setembro de 2026), itens 33, 55 e 56.
  6. ANS — Terminologia TUSS, tabela 38 (mensagens do padrão TISS), versão 202607 (planilha oficial da ANS “TUSS - Demais terminologias”), conferida em 18/10/2026; consulta on-line na plataforma de consulta da TUSS (Open Concept Lab).