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Guias · Glosa

Glosa de honorários médicos: equipe, via de acesso e acréscimos

As regras de cobrança que mais geram glosa de honorários médicos. Veja por que a operadora corta o pagamento de auxiliares, de procedimentos múltiplos e de adicionais de urgência e acomodação, quais códigos da tabela 38 aparecem no demonstrativo e como documentar para receber.

Por Publicado em 9 min de leitura

O que é glosa de honorários médicos?

Glosa de honorários médicos é a recusa, total ou parcial, do pagamento cobrado pela equipe médica: cirurgião, auxiliares, anestesista, clínico, intensivista. O corte vem no demonstrativo de análise de conta, com um código da tabela 38 da Terminologia Unificada da Saúde Suplementar (TUSS) [1].

É um caso particular da glosa hospitalar, com uma diferença: o valor do honorário não é fixo. Ele depende do porte, da função de cada médico, dos procedimentos feitos no mesmo ato e de adicionais, e cada regra mal aplicada vira glosa.

Em 2024, a linha “outras receitas operacionais”, que inclui honorários e pacotes, foi 26,13% da receita bruta dos hospitais Anahp (119 informantes) [7]. O Observatório não separa os honorários.

Como o honorário é calculado (e onde nasce a glosa)

O honorário de cada médico sai de uma conta em quatro passos, e a glosa aparece quando um deles não bate com o que a operadora aceita. Parte-se do porte do procedimento na tabela de referência do contrato, em geral a Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM), publicada pela Associação Médica Brasileira (AMB), ou uma tabela própria. Aplica-se o grau de participação de cada médico, depois a redução por via de acesso nos procedimentos múltiplos e, por fim, os acréscimos de urgência ou acomodação. Portes e UCO estão no guia CBHPM.

Os percentuais citados neste guia são da edição 2012 da CBHPM, cujo texto completo está aberto no servidor da AMB [3]. A edição mais recente é a de 2022, vendida pela AMB e não consultada aqui. Os percentuais podem ter mudado nela, e vale sempre a edição definida no contrato.

Do porte ao valor pago: quatro pontos em que o honorário é glosado Fluxo em quatro passos. 1 Porte: código do procedimento e porte na tabela do contrato (CBHPM ou própria); glosa quando o ato é parte de outro. 2 Grau de participação: função da tabela 35 da TUSS e número de auxiliares admitido; glosas 3241 e 2603. 3 Via de acesso: principal integral e demais reduzidos (CBHPM 2012: 50% pela mesma via, 70% por via diferente); glosas 2605 e 1837. 4 Acréscimos: urgência de 30% das 19h às 7h e em fins de semana e feriados, e acomodação superior; glosas 3309 e 1747. Fontes: AMB, CBHPM 2012, Instruções Gerais; ANS, TUSS tabelas 35 e 38 (versão 202607). Do porte ao valor pago: quatro pontos em que o honorário é glosado Cada passo do cálculo tem uma regra e uma mensagem própria na tabela 38 da TUSS 1 Porte Código do procedimento e porte na tabela do contrato (CBHPM ou tabela própria) Ato parte de outro: só o principal Tabela do contrato 2 Grau Função na tabela 35 (00 cirurgião a 13 intensivista) Nº de auxiliares admitido; equipe na descrição cirúrgica Glosas: 3241 · 2603 3 Via de acesso Principal integral; demais reduzidos CBHPM 2012: 50% pela mesma via e 70% por via diferente Glosas: 2605 · 1837 4 Acréscimos Urgência: 30%, 19h–7h, fins de semana e feriados (só em ato de urgência) Acomodação superior conforme o plano Glosas: 3309 · 1747 Fonte: AMB — CBHPM 2012, Instruções Gerais; ANS — TUSS, tabelas 35 e 38 (versão 202607). A edição aplicável é a do contrato.
Fonte: AMB — CBHPM 2012, Instruções Gerais; ANS — TUSS, tabelas 35 e 38. A edição da CBHPM aplicável é a definida no contrato. Produzido por Accrua.
Ver o fluxo em tabela
PassoRegraGlosas típicas (tabela 38)
1. PorteCódigo do procedimento e porte na tabela do contrato; ato parte de outro: só o principal—
2. Grau de participaçãoFunção da tabela 35 (00 cirurgião a 13 intensivista); número de auxiliares admitido; equipe na descrição cirúrgica3241, 2603
3. Via de acessoPrincipal integral; demais reduzidos (CBHPM 2012: 50% mesma via, 70% via diferente)2605, 1837
4. AcréscimosUrgência 30% das 19h às 7h, fins de semana e feriados, só em ato de urgência; acomodação conforme o plano3309, 1747

Quais são os motivos mais comuns de glosa de honorários?

Quase todos os motivos têm mensagem própria na tabela 38 da TUSS, usada nas respostas de cobrança do padrão TISS [4]. A tabela traz a descrição literal da ANS e o documento que responde a cada uma.

CódigoDescrição na tabela 38O que costuma estar por trásDocumento que responde
3241GRAU DE PARTICIPAÇÃO INFORMADO INCOMPATÍVEL COM O PROCEDIMENTO COBRADOMais auxiliares que o previsto para o procedimento, ou código da tabela 35 errado para o atoTabela do contrato com o número de auxiliares; descrição cirúrgica e folha de sala; correção do grau na guia
2603COBRANÇA DE HONORÁRIO SEM REGISTRO DA EFETIVA PARTICIPAÇÃO DO PROFISSIONALMédico cobrado sem nome na descrição cirúrgicaDescrição cirúrgica e folha de sala com a equipe
2605NÃO CABE PAGAMENTO DO HONORÁRIO INTEGRAL POR SER A MESMA VIA DE ACESSO CIRÚRGICOSegundo procedimento cobrado a 100%Descrição cirúrgica com as incisões; regra de múltiplos do contrato
1837NÃO CABE PAGAMENTO DO HONORÁRIO INTEGRAL POR SER VIA DE ACESSO CIRÚRGICO DIFERENTEProcedimento por outra via cobrado a 100%Idem; prova de equipes diferentes, quando houver
3309URGÊNCIA/EMERGÊNCIA NÃO APLICÁVELAdicional de urgência em cirurgia agendada ou fora da faixa de horárioCaráter de atendimento correto, horários de início e fim na folha de sala e relatório de urgência
1747PLANO DO BENEFICIÁRIO E O TIPO DE ACOMODAÇÃO NÃO PERMITEM ACRÉSCIMO DE HONORÁRIOSAdicional de apartamento sem direito no planoElegibilidade e acomodação autorizada

Há ainda mensagens para anestesia (1832, 1834), duplicidade de honorários (2607) e procedimento principal que não requer equipe médica (2604) [1]. Os códigos desta seção foram conferidos na TUSS versão 202607, planilha oficial da ANS [1]. O significado de cada mensagem está no guia Códigos de glosa TISS.

O grau de participação define quem recebe e quanto

O grau de participação é o código da função que o médico exerceu no ato. A tabela 35 da TUSS lista 14 funções [2]: 00 cirurgião; 01 a 04 primeiro a quarto auxiliar; 05 instrumentador; 06 anestesista; 07 auxiliar de anestesista; 08 consultor; 09 perfusionista; 10 pediatra na sala de parto; 11 auxiliar SADT; 12 clínico; 13 intensivista.

A glosa por grau tem três origens. As duas primeiras recebem 3241: auxiliar além do número que a tabela admite para o procedimento e código errado para o ato, como dois médicos com grau de cirurgião. A terceira é o médico cobrado que não aparece na descrição cirúrgica nem na folha de sala (2603).

O percentual do auxiliar varia por edição. Na edição 2012 da CBHPM publicada pela AMB, o primeiro auxiliar recebe 30% do porte do cirurgião, e o segundo, o terceiro e, quando o caso exigir, o quarto auxiliar, 20% cada [3]. Edições posteriores, inclusive a 2022, podem ter mudado esses percentuais; vale a edição definida no contrato.

Via de acesso: o segundo procedimento não é pago por inteiro

Com dois ou mais procedimentos no mesmo ato, a regra de via de acesso reduz o valor dos secundários. Na edição 2012 da CBHPM, pela mesma via de acesso o porte do procedimento principal é somado a 50% do porte de cada um dos demais; por vias diferentes, a 70% [3]. Quando equipes diferentes fazem procedimentos distintos ao mesmo tempo, cada equipe recebe o porte do seu procedimento [3]. Nos procedimentos múltiplos, o número de auxiliares pagos é o do procedimento de maior porte (item 5.2) [3]: auxiliar a mais por causa do segundo procedimento tende a voltar com 3241.

Os cortes costumam vir de três erros. O primeiro é o procedimento secundário cobrado a 100% (2605 ou 1837). O segundo é o ato que é parte integrante de outro cobrado à parte, quando a CBHPM 2012 valora só o principal [3]. O terceiro é a via diferente sem prova, porque a descrição cirúrgica não registra as incisões ou os acessos.

Na edição 2012, a videocirurgia tem porte próprio, independente do correlato convencional [3]; adicional de vídeo sem previsão recebe 1829 [1].

Acréscimos de urgência e de acomodação: quando cabem

Os acréscimos são glosados quando a conta não prova a situação prevista na tabela e no contrato. Na CBHPM 2012 [3]:

AcréscimoRegra na CBHPM 2012Glosa típicaProva
Urgência ou emergência30% no porte, das 19h às 7h do dia seguinte e em qualquer horário de sábados, domingos e feriados; ato iniciado no horário normal recebe o acréscimo se mais da metade ocorrer na faixa de urgência3309Caráter de atendimento “urgência/emergência” na guia; horários de início e fim; relatório médico
Acomodação superiorPorte em dobro só em planos superiores, para paciente em apartamento ou quarto privativo, hospital-dia ou UTI; não vale para o capítulo IV, salvo observação (item 6.2)1747Acomodação contratada e autorizada; elegibilidade

O acréscimo de urgência depende do caráter do atendimento, não só do horário: cirurgia eletiva feita à noite não o recebe (3309). O de acomodação depende do plano: se o produto é enfermaria, o adicional de apartamento é glosado (1747). A acomodação escolhida voluntariamente pelo paciente é tratada como negociação entre paciente e médico (item 6.1) [3]. Percentual diferente do contratado recebe 1746 ou 1716, e a visita da equipe cirúrgica nos 10 dias seguintes ao ato, já incluída no porte (item 3.1), recebe 1724 [1][3].

Como evitar a glosa de honorários antes do envio

A prevenção é conferir equipe, via e acréscimos contra o registro do ato antes de faturar. No padrão TISS, honorários faturados pelo hospital entram no resumo de internação (item 62.19), e a guia de honorários só se vincula à solicitação de internação (item 62.26) [4]. O detalhe está nos guias Guias TISS e Honorários médicos na conta hospitalar.

PontoPergunta antes do envioGlosa se falhar
EquipeCada médico cobrado está na descrição cirúrgica e na folha de sala, com o grau certo?2603, 3241
AuxiliaresO número de auxiliares cabe no procedimento pela tabela do contrato?3241, 2604
Procedimentos múltiplosO principal é o de maior porte? As vias estão descritas?2605, 1837
UrgênciaO caráter é urgência, e o horário está na faixa?3309
AcomodaçãoO plano e a autorização permitem o adicional?1747
DuplicidadeO mesmo médico, no mesmo ato, aparece em uma guia só?2607

A base é a descrição cirúrgica completa (nome, CRM e função de cada membro da equipe, procedimentos, vias e horários de início e fim), coerente com a folha de sala. As regras do contrato precisam estar configuradas no sistema de faturamento. O que o prontuário precisa ter está no guia Auditoria de prontuário.

Como recorrer de uma glosa de honorários

O recurso responde ao código informado, com o documento que prova o ponto contestado, pelas mensagens de recurso de glosa do padrão TISS [4].

  1. Leia o código e a justificativa. A RN 503/2022 veda à operadora impedir o acesso às justificativas de glosa e a contestação, se o faturamento seguir o TISS vigente [5].
  2. Separe glosa de regra e de prova. Edição ou percentual divergente se contesta com o contrato; falta de registro, com o documento clínico.
  3. Junte o documento certo: equipe (2603), vias (2605, 1837), caráter e horários (3309), acomodação autorizada (1747).
  4. Respeite o prazo do contrato. A RN 503/2022 exige que o contrato preveja os prazos de contestação e de resposta, com o de contestação igual ao de resposta, mas não fixa o número de dias [5].
  5. Registre o resultado por código, operadora e especialidade. O passo a passo está nos guias Recurso de glosa e Prazo para recurso de glosa.

O que vemos na operação

Na Accrua, a glosa de honorários é lida junto com a descrição cirúrgica, porque é ali que estão a equipe, as vias de acesso e os horários. O Accrua OS cruza o grau de participação, a via e os acréscimos lançados com o procedimento autorizado, a edição da CBHPM prevista no contrato com aquela operadora e o histórico de glosa para aquele código.

Antes do envio, o que não fecha vira pendência com a fonte indicada: auxiliar incompatível com o procedimento, segundo procedimento cobrado como principal, urgência lançada em cirurgia eletiva. Alterar um item que muda o valor da conta é decisão de uma pessoa, não do sistema.

Quando a glosa chega, o agente prepara o rascunho do recurso com o trecho da descrição cirúrgica e a regra do contrato. Se a operadora aplicou uma edição da tabela diferente da contratada, o caso é registrado e vai para revisão do contrato. O que se aprende num recurso volta como conferência para a próxima conta.

Por onde começar

  1. Levante as glosas de honorários dos últimos meses por código da tabela 38, operadora e especialidade.
  2. Confira em cada contrato a edição da tabela de referência, os deflatores, a regra de procedimentos múltiplos e os acréscimos aceitos.
  3. Padronize a descrição cirúrgica com equipe, grau, vias e horários, e combine com o centro cirúrgico a coerência com a folha de sala.
  4. Monte o recurso por código, separando glosa de regra (contrato) de glosa de prova (registro clínico).

Perguntas frequentes sobre glosa de honorários médicos

Por que a operadora pagou só metade do segundo procedimento?

Porque aplicou a regra de via de acesso. Na edição 2012 da CBHPM, o segundo procedimento pela mesma via soma 50% do porte, e por outra via, 70%. Para contestar, a descrição cirúrgica precisa provar via ou equipe diferente.

O que significa grau de participação incompatível?

Que o código da função informado na guia, da tabela 35 da TUSS, não cabe no procedimento cobrado: por exemplo, um terceiro auxiliar em procedimento que admite só um. A operadora informa a glosa com 3241.

Cirurgia feita à noite tem acréscimo de urgência?

Só se o atendimento tiver caráter de urgência ou emergência. Na CBHPM 2012, o acréscimo de 30% vale das 19h às 7h e nos fins de semana e feriados, para atos de urgência. Cirurgia eletiva no mesmo horário recebe a glosa 3309.

Qual o prazo para recorrer de uma glosa de honorários?

O do contrato. A RN 503/2022 exige que o contrato fixe os prazos de contestação e de resposta, com o de contestação igual ao de resposta, sem definir o número de dias.

Fontes

  1. ANS — TUSS, tabela 38 (mensagens), versão 202607, planilha oficial “Demais terminologias” da ANS, conferida em 18/10/2026.
  2. ANS — TUSS, tabela 35 (grau de participação), versão 202607, planilha oficial “Demais terminologias” da ANS, conferida em 18/10/2026.
  3. Associação Médica Brasileira — Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos, edição 2012 (novembro de 2012), Instruções Gerais, itens 2.1, 3.1, 3.2, 4.1, 4.2, 4.4, 4.5, 5.1, 5.2, 6.1 e 6.2.
  4. ANS — Padrão TISS: Componente Organizacional, versão 202609 (setembro de 2026), itens 51, 62.19, 62.26 e 103.
  5. ANS — Resolução Normativa nº 503/2022 (contratos entre operadoras e prestadores), arts. 5º, V e VI, e 14.
  6. Anahp — Balanço Observatório Anahp, 9ª edição, março de 2026 (dados de 2025).
  7. Anahp — Observatório Anahp 2025 (dados de 2024), Tabela 3; 119 hospitais informantes.