Pular para o conteúdo
Guias · Saúde suplementar

Modelos de remuneração hospitalar: fee for service, pacotes, DRG e valor

Prós, contras e riscos de cada um dos modelos de remuneração hospitalar. Veja como fee for service, pacotes, DRG e remuneração baseada em valor mudam a glosa, o preço e o caixa, com os dados de pagamento por pacote das operadoras.

Por Publicado em 10 min de leitura

O que é modelo de remuneração hospitalar?

Modelo de remuneração é a forma como o recurso financeiro da operadora é alocado ao hospital: por item, por pacote, por caso, por pessoa ou por resultado. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) distingue o modelo da maneira como o valor é efetivamente pago, por tabela, pacote ou outra forma [1][2].

O padrão TISS (Troca de Informações na Saúde Suplementar) classifica os modelos em sete grupos, registrados na tabela 79 da Terminologia Unificada da Saúde Suplementar (TUSS): por procedimento (fee for service), pacote, orçamentação global, capitação (capitation), grupos homogêneos de diagnóstico (DRG, do inglês Diagnosis Related Groups), bundle baseado em episódio e bundle por condição clínica [2]. A operadora informa à ANS o modelo de remuneração de cada guia nos dados que envia pelo padrão [2]. O contexto completo do mercado está no guia Saúde suplementar.

Os modelos lado a lado: quem paga o quê e quem corre o risco

Cada modelo muda o que o hospital cobra e quem absorve a variação de custo. A tabela resume o guia da ANS de 2019 [1] e o efeito no ciclo de receita.

ModeloComo o hospital recebeQuem absorve a variação de custoOnde nasce a perda para o hospital
Fee for service (conta aberta)Soma de cada item: diárias, taxas, materiais, medicamentos, honorários, exames, pela tabela do contratoOperadoraGlosa item a item e auditoria de conta
PacoteValor fechado para um conjunto de procedimentos e itens, definido em contratoHospital, dentro do que o pacote incluiPreço mal calculado, exclusões mal definidas, cobrança fora do pacote
DRGValor fixo por caso, conforme o grupo de diagnóstico e o peso relativoHospital, salvo casos extremos (outliers) pagos à parteCodificação incompleta e casos mais complexos que o grupo
CapitationValor fixo por beneficiário em um período, independente do volumeHospital ou redeUso acima do previsto na população coberta
Bundle (episódio ou condição)Valor para o ciclo de cuidado, por exemplo de antes da cirurgia até depois da altaPrestador ou grupo de prestadoresComplicações e reinternações dentro do período
Pagamento por desempenhoBônus ou redutor sobre outro modelo, conforme indicadoresCompartilhadoMetas não atingidas ou mal medidas

O pagamento por desempenho não é um modelo isolado: a ANS o descreve como ajuste sobre outro modelo [1].

Quanto as operadoras pagam por cada modelo?

O pagamento por procedimento ainda é a forma predominante, mas perdeu 25 pontos percentuais em seis anos. Os dados são das despesas assistenciais das operadoras médico-hospitalares, a partir dos dados abertos da ANS [5].

Forma de pagamento (% das despesas assistenciais)201920242025
Por procedimento83,7%58,5%58,6%
Por pacote3,8%12,0%13,1%
Rateio de custos de recursos próprios (rede própria)6,9%13,7%13,0%
Prestados por rede indireta0,0%9,2%8,5%

Fonte: dados abertos da ANS tratados pela Arquitetos da Saúde, Balanço Observatório Anahp, março de 2026 [5]. As quatro formas listadas não somam o total das despesas.

O pagamento por pacote subiu de 3,8% para 13,1% das despesas das operadoras Gráfico de barras. Participação de cada forma de pagamento nas despesas assistenciais das operadoras médico-hospitalares em 2019, 2024 e 2025. Por procedimento: 83,7%, 58,5% e 58,6%. Por pacote: 3,8%, 12,0% e 13,1%. Rateio de custos de recursos próprios (rede própria): 6,9%, 13,7% e 13,0%. Prestados por rede indireta: 0,0%, 9,2% e 8,5%. Fonte: dados abertos da ANS tratados pela Arquitetos da Saúde, Balanço Observatório Anahp, março de 2026. O pagamento por pacote subiu de 3,8% para 13,1% das despesas das operadoras Forma de pagamento, % das despesas assistenciais das operadoras médico-hospitalares Por procedimento 2019 83,7% 2024 58,5% 2025 58,6% Por pacote 2019 3,8% 2024 12,0% 2025 13,1% Rede própria (rateio de custos) 2019 6,9% 2024 13,7% 2025 13,0% Rede indireta 2019 0,0% 2024 9,2% 2025 8,5% Fonte: dados abertos da ANS tratados pela Arquitetos da Saúde, Balanço Observatório Anahp (mar/2026). As quatro formas não somam 100%.
Fonte: dados abertos da ANS tratados pela Arquitetos da Saúde, Balanço Observatório Anahp, março de 2026 · forma de pagamento, % das despesas assistenciais das operadoras médico-hospitalares. As quatro formas não somam 100%. Produzido por Accrua.
Ver os números em tabela
Forma de pagamento201920242025
Por procedimento83,7%58,5%58,6%
Por pacote3,8%12,0%13,1%
Rateio de custos de recursos próprios (rede própria)6,9%13,7%13,0%
Prestados por rede indireta0,0%9,2%8,5%

O pacote segue em alta: foi de 13,0% no 1º trimestre de 2026 [6]. O peso varia por modalidade de operadora. Em 2025, os pacotes responderam por 25,3% das despesas assistenciais das seguradoras e por 18,0% das de medicina de grupo [5]. Os números atualizados estão em Dados do setor.

Fee for service: glosa item a item e preço de tabela

No fee for service, o hospital cobra cada item, e cada item pode ser glosado. Para a ANS, o modelo dá valor conhecido antes do procedimento, mas não considera resultado nem qualidade e estimula a sobreutilização [1].

  • Glosa. A conta aberta concentra a auditoria item a item. Nos hospitais associados à Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), a glosa inicial (valores glosados ainda em fase de negociação) foi de 15,93% dos valores a receber das operadoras em 2025 [5]. A glosa aceita foi de 1,72% da receita bruta de convênios [5]. Veja o guia Glosa hospitalar.
  • Preço. Cada item segue a tabela do contrato; a margem depende da negociação e do reajuste anual.
  • Caixa. Quanto mais itens, mais conferência antes e depois do envio. O prazo médio de recebimento dos hospitais Anahp foi de 77,35 dias em 2025 [5].

A vantagem para o hospital é que a operadora absorve a variação de custo de cada paciente, o que protege em casos complexos.

O pacote reduz a glosa ou só muda o risco?

O pacote troca o risco de glosa item a item pelo risco de preço. Se o custo real passa do valor fechado, o hospital perde, mesmo sem nenhuma glosa.

A ANS diferencia o pacote do bundle. O pacote agrupa procedimentos e itens e é pago por um valor único, mas mantém a lógica de volume do fee for service e, em geral, não tem ajuste por desempenho [1]. O bundle remunera um ciclo de cuidado, por exemplo uma cirurgia com o que vem antes e até 30 dias após a alta, e prevê avaliação de qualidade [1]. Na tabela 79 do padrão TISS, pacote e bundle são códigos diferentes [2].

O que precisa estar no contrato de pacote:

Ponto do pacoteRisco se ficar vagoComo se proteger
Procedimento e critérios de elegibilidadePaciente fora do perfil entra no preço fechadoDefinir o procedimento, a faixa de risco e o que tira o caso do pacote
Itens incluídosOperadora entende que tudo está incluídoListar diárias, taxas, materiais, medicamentos e honorários cobertos
Exclusões e OPMEÓrteses, próteses e materiais especiais (OPME) caras dentro do valor fechadoListar o que se cobra à parte e por qual tabela
Limite de diárias e complicaçõesPermanência maior ou reinternação absorvida pelo hospitalPrever diárias excedentes e regra para complicações
ReajustePreço congelado enquanto o custo sobeIncluir o pacote no reajuste anual do contrato

O cálculo do preço e o faturamento do pacote, com os gatilhos de saída e as 25 mensagens de glosa de pacote da tabela 38 da TUSS, estão detalhados no guia Pacotes hospitalares.

DRG: valor fixo por caso, conforme o diagnóstico

DRG é um sistema que classifica as internações em grupos homogêneos de consumo de recursos, segundo diagnóstico e características clínicas; como modelo de pagamento, remunera cada caso por um valor definido antes, conforme o grupo [1][2]. Foi criado na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, entre o fim dos anos 1960 e os anos 1970, como ferramenta de gestão [1].

Para pagar por DRG, é preciso classificar os casos, definir pesos por grupo e preço por unidade e pagar à parte os casos extremos [1]. A ANS aponta três riscos dos pagamentos fixos por caso: redução de insumos e serviços na internação, mais reinternações por alta precoce e o chamado DRG creep, que é classificar pacientes em grupos de maior valor do que o perfil real [1].

  • A glosa sai do item e vai para o caso. A discussão passa a ser o grupo em que a internação foi classificada.
  • A codificação vira receita. O registro do diagnóstico e das comorbidades define o grupo e o valor.
  • O dado clínico precisa de caminho próprio. O padrão TISS veda que a operadora exija a Classificação Internacional de Doenças (CID) nas guias [7]. Um contrato por DRG precisa definir como e por qual meio os dados de diagnóstico serão compartilhados.

O guia DRG no Brasil trata da preparação do hospital.

O que a ANS chama de remuneração baseada em valor?

Para a ANS, um modelo só é baseado em valor quando o modelo de cuidado e o modelo de pagamento estão integrados. Valor são os desfechos clínicos e não clínicos que importam ao paciente, medidos por indicadores [3]. A agência afirma que a simples redução de gastos deve ser evitada [3].

Pacote, portanto, não é sinônimo de valor: o pacote fixa preço; o modelo baseado em valor liga parte do pagamento a resultado.

  • Origem. O Grupo Técnico de Modelos de Remuneração foi criado em setembro de 2016, e o guia da ANS saiu em 2019 [1].
  • 1º edital (2019). Recebeu 61 projetos de 40 operadoras e selecionou 13 para acompanhamento [3].
  • 2º edital (novembro de 2022). Recebeu 49 projetos de 36 operadoras e selecionou 20, sendo 16 médico-hospitalares e 4 de saúde bucal, com acompanhamento previsto de 36 meses [3][4].
  • Modelo mais usado. Nos projetos do 2º edital, a combinação mais frequente foi fee for service com pagamento por desempenho, em 8 projetos (6 médico-hospitalares), segundo o resumo do relatório [4].
  • Incentivo à operadora. No Programa de Qualificação de Operadoras, ano-base 2024, a participação efetiva no projeto rende pontuação base de 0,10 no índice de qualidade em atenção à saúde (IDQS) [8].

Para o hospital, fee for service com bônus por indicadores preserva a conta aberta e acrescenta metas de qualidade, desde que a medição esteja no contrato.

Escolher e negociar o modelo com cada operadora

A escolha começa pelo custo e pelos dados do próprio hospital. Depende da previsibilidade do procedimento, da qualidade do custeio e da capacidade de medir resultado.

Situação do hospital ou do procedimentoModelo que tende a fazer sentidoCondição para não perder margem
Casos complexos e com custo muito variávelFee for serviceTabela negociada e auditoria interna antes do envio
Cirurgia eletiva com protocolo estávelPacoteCusto real por paciente conhecido e exclusões claras
Linha de cuidado com indicadores de desfechoBundle ou fee for service com desempenhoIndicadores, base de dados e regras de medição no contrato
Internações clínicas com codificação maduraDRGCodificação de diagnóstico e regra para casos extremos

Qualquer que seja o modelo, a Lei 9.656/1998 exige contrato escrito com valores, critérios e periodicidade de reajuste e prazos e procedimentos de faturamento e pagamento [9]. A RN 503/2022 detalha o conteúdo mínimo, incluindo a rotina de auditoria e as hipóteses de glosa [10]. Veja o guia RN 503/2022: o contrato com a operadora.

O que vemos na operação

Na Accrua, o modelo de remuneração de cada contrato muda o que conferimos na conta. Em conta aberta, o Accrua OS cruza item a item com a tabela vigente e o histórico de glosa daquela operadora. Em pacote, a conferência é outra: o que está dentro do pacote, o que está nas exclusões, se a OPME usada estava listada e se a permanência ficou dentro do previsto.

Quando lemos o histórico de um hospital, separamos a glosa por modelo de remuneração e por operadora, porque um mesmo item pode ser glosado por motivos diferentes em cada contrato. Essa leitura mostra onde o pacote trocou glosa por risco de custo.

Alterar a regra de um contrato é sempre decisão de uma pessoa do hospital. O que levamos para a negociação é o histórico, conta a conta, do que aconteceu com cada modelo naquela operadora.

Por onde começar

  1. Mapeie a receita por modelo e por operadora: conta aberta, pacote e outros arranjos.
  2. Calcule o custo real dos pacotes vigentes, paciente a paciente, e compare com o preço contratado.
  3. Revise as cláusulas de cada pacote: itens incluídos, exclusões, OPME, limite de diárias, complicações e reajuste.
  4. Meça glosa e prazo de recebimento por modelo, com os indicadores do ciclo de receita.
  5. Defina os indicadores de qualidade que o hospital já mede antes de negociar qualquer modelo com bônus por desempenho.

Perguntas frequentes sobre modelos de remuneração hospitalar

Qual é o modelo mais usado no Brasil?

O pagamento por procedimento. Em 2025, ele respondeu por 58,6% das despesas assistenciais das operadoras médico-hospitalares, segundo dados da ANS tratados para o Balanço Observatório Anahp. O pacote respondeu por 13,1%.

Qual a diferença entre pacote e bundle?

O pacote agrupa procedimentos e itens por um valor único, mas mantém a lógica de volume e, em geral, não tem ajuste por desempenho. O bundle remunera um ciclo de cuidado, por exemplo da cirurgia até 30 dias após a alta, e prevê avaliação de qualidade.

O pacote reduz a glosa?

Pode reduzir a glosa item a item, porque há menos itens a auditar. Mas transfere ao hospital o risco de custo: se o caso consome mais do que o valor fechado, a perda acontece sem glosa. Itens cobrados fora do pacote ainda podem ser glosados.

O DRG é usado na saúde suplementar?

É reconhecido pela ANS como modelo de remuneração e tem código próprio na tabela 79 do padrão TISS. Os dados públicos consultados não mostram o seu peso nas despesas das operadoras.

O que é remuneração baseada em valor?

É o modelo em que parte do pagamento depende de desfechos que importam ao paciente, medidos por indicadores. A ANS acompanha projetos-piloto desde 2019 e afirma que esses modelos não devem se basear só na redução de gastos.

Fontes

  1. ANS — Guia para Implementação de Modelos de Remuneração Baseados em Valor, Rio de Janeiro, 2019, p. 17 a 37 (GT de Modelos de Remuneração, fee for service, diárias, pagamento por desempenho, pacotes e bundles, DRG).
  2. ANS — Padrão TISS: Componente Organizacional, janeiro de 2026 (202601), seção “Modelos de remuneração entre operadoras e prestadores” e tabela 79 da TUSS.
  3. ANS — Programa Modelos de Remuneração Baseados em Valor (página do programa e página de projetos-pilotos), consultadas em 17/10/2026. link ·
  4. ANS — Relatório sobre monitoramento do Programa Modelos de Remuneração Baseados em Valor da ANS: PGA 2024, Rio de Janeiro, 2025.
  5. Anahp — Balanço Observatório Anahp, 9ª edição, março de 2026 (dados de 2025), com dados abertos da ANS tratados pela Arquitetos da Saúde.
  6. Anahp — Balanço Observatório Anahp, junho de 2026 (1º trimestre de 2026).
  7. ANS — Padrão TISS: Componente Organizacional, versão 202609 (setembro de 2026), item 28.
  8. ANS — Programa de Qualificação de Operadoras, ano-base 2024: indicador 1.12, Participação no Projeto de Modelos de Remuneração Baseados em Valor (pontuação base de 0,10).
  9. Lei nº 9.656/1998 (planos de saúde), art. 17-A, incluído pela Lei nº 13.003/2014.
  10. ANS — Resolução Normativa nº 503/2022 (contratos entre operadoras e prestadores), art. 14.