O que é o tempo entre alta e faturamento?
É o número de dias que a conta leva da alta do paciente até o envio à operadora. O indicador responde a uma pergunta simples: depois que o atendimento termina, quanto tempo o hospital demora para cobrar?
Também chamado de tempo entre alta e envio ou tempo para faturar, o indicador cobre as etapas 5 e 6 do ciclo de receita hospitalar. São o fechamento e a auditoria da conta, o faturamento e o envio. Nesse trecho não há prazo da operadora correndo. Todo dia de espera vem de uma pendência interna.
O pilar Faturamento hospitalar recomenda medir esse intervalo separadamente, porque ele mostra quanto do atraso no recebimento é do hospital. O prazo médio de recebimento (PMR) dos hospitais associados à Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) foi de 77,35 dias em 2025 [2]. Esse número não diz quantos dias as contas passaram dentro do hospital antes de serem cobradas.
A conta passa por quatro marcos e três trechos
A conta muda de estado em quatro datas: alta, fechamento, envio e pagamento. Entre elas há três trechos, e só o último depende da operadora.
Ver os trechos em tabela
| Trecho | Do marco | Ao marco | O que segura a conta | Quem controla |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Alta | Fechamento | Prontuário, lançamentos, OPME, autorização, auditoria (saldo DNFB) | Hospital |
| 2 | Fechamento | Envio (protocolo) | Calendário de lote da operadora, validação do XML (saldo FBNS) | Hospital |
| 3 | Envio (protocolo) | Pagamento | Análise da operadora, glosa, recurso, pagamento | Operadora |
| Marco | O que registra | Onde buscar a data | Cuidado |
|---|---|---|---|
| Alta | Fim do atendimento (internação) ou do período cobrado (conta parcial) | Sistema de gestão hospitalar; comunicação de alta pelo padrão de Troca de Informação de Saúde Suplementar (TISS), de envio eletrônico obrigatório [7] | Alta registrada com atraso no sistema esconde dias de conta parada |
| Fechamento | Conta conferida, auditada e pronta para gerar as guias | Status da conta no sistema | Defina um único status como “fechada”; reaberturas voltam o relógio |
| Envio | Conta transmitida à operadora em lote XML | Número e data do protocolo do lote | Lote rejeitado não conta como envio; vale a data do reenvio aceito |
| Pagamento | Valor recebido e conciliado | Demonstrativo de pagamento e extrato | Fora deste indicador; é parte do PMR |
O primeiro trecho, da alta ao fechamento, concentra as pendências de documentação, lançamento e autorização. O segundo, do fechamento ao envio, depende do calendário de envio de cada operadora e da validação do arquivo. O terceiro é a análise e o pagamento pela operadora.
A Healthcare Financial Management Association (HFMA), entidade americana de gestão financeira em saúde, separa os dois primeiros trechos em dois saldos [1]. O DNFB reúne as contas com alta ainda sem faturamento final. O FBNS reúne as contas já fechadas e não enviadas, por críticas antes do envio ou rejeição na transmissão [1]. O guia Contas não faturadas (DNFB) trata desses saldos em reais e em dias de receita.
Como calcular o tempo entre alta e envio
O cálculo usa as contas enviadas no período e as datas de cada uma:
Tempo médio entre alta e envio (dias) = soma de (data do envio − data da alta) das contas enviadas no período ÷ número de contas enviadas no período
A fórmula é uma proposta deste guia, não uma regra da HFMA nem da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A HFMA não tem um indicador de dias da alta ao envio por conta. O DNFB é uma foto do saldo no fim do mês, e o charge lag (PB-4) mede os dias entre o serviço e o lançamento de cada item [1]. O importante é escrever a definição e mantê-la todos os meses.
Quatro escolhas evitam números enganosos:
- Média e mediana juntas. Poucas contas muito atrasadas puxam a média para cima. A mediana mostra a conta típica; a diferença entre as duas mostra o tamanho da cauda.
- Abertura por trecho. Calcule à parte alta → fechamento e fechamento → envio. Se o segundo trecho é longo, o problema está no calendário de lotes ou nas críticas do arquivo, não na conferência.
- Conta parcial com a data do período. A Terminologia Unificada da Saúde Suplementar (TUSS) classifica o faturamento como parcial, final, complementar ou total (tabela 55) [8]. Na conta parcial, use a data de fim do período cobrado no lugar da alta; na complementar, meça à parte, para não misturar lançamentos tardios com o fechamento normal.
- Leitura junto com o DNFB. A média só enxerga as contas que já saíram. Uma conta parada há 60 dias não entra no cálculo até ser enviada; o DNFB mostra essa conta hoje.
Exemplo ilustrativo. Em um mês, um hospital enviou cinco contas com 3, 4, 5, 6 e 32 dias entre alta e envio. A média é de 10 dias; a mediana, de 5. A conta de 32 dias, uma internação com nota fiscal de órteses, próteses e materiais especiais (OPME) pendente, sozinha mais que dobrou a média (sem ela, seria de 4,5 dias). Abrir por trecho mostrou 27 dias até o fechamento e 5 até o envio.
Por que as contas ficam paradas depois da alta?
A conta fica parada porque falta algo para fechá-la ou para enviá-la. Cada causa aparece em um trecho e tem um responsável diferente. A tabela reúne as que costumam surgir na rotina de hospitais que atendem operadoras.
| Causa | Trecho | Responsável | Prática que encurta o tempo |
|---|---|---|---|
| Alta registrada tarde no sistema | Antes do fechamento | Unidades de internação e recepção | Registro da alta no mesmo turno e comunicação de alta pelo TISS [7] |
| Prontuário incompleto (evolução, prescrição checada, descrição cirúrgica, relatório de alta) | Alta → fechamento | Corpo clínico e enfermagem | Checklist de alta conferido antes de o paciente sair |
| Lançamento tardio de materiais e medicamentos | Alta → fechamento | Farmácia, centro cirúrgico e setores assistenciais | Lançamento no ponto de uso; a HFMA trata como tardio o lançamento feito mais de 3 dias após o serviço [1] |
| OPME sem nota fiscal, etiqueta ou autorização | Alta → fechamento | Suprimentos e central de autorizações | Documentação do item conferida na sala, antes do fim da cirurgia |
| Prorrogação ou autorização pendente | Alta → fechamento | Central de autorizações | Pedido de prorrogação antes de vencerem as diárias autorizadas |
| Equipe médica ou honorários não informados | Alta → fechamento | Faturamento e corpo clínico | Equipe registrada a partir da escala cirúrgica |
| Fila de auditoria interna | Alta → fechamento | Auditoria interna | Auditoria concorrente, durante a internação |
| Espera pelo calendário de envio da operadora | Fechamento → envio | Faturamento | Calendário de envio por operadora, com a data de corte de cada uma |
| Críticas ou rejeição do lote XML | Fechamento → envio | Faturamento e TI | Validação do arquivo antes da transmissão |
Duas causas pedem atenção à parte. A primeira é a reabertura: a conta fechada que volta por pendência perde o lugar na fila e soma dias aos dois trechos. Contar as reaberturas por motivo mostra onde a conferência está falhando.
A segunda são as internações longas. Sem conta parcial, a receita de uma internação de semanas só começa a ser cobrada depois da alta, e a conta grande demora mais para ser auditada. Quando o contrato permite, a conta parcial antecipa a cobrança; o tema está no guia Conta parcial.
O atraso custa caixa e pode virar glosa
O atraso custa de duas formas: o dinheiro parado e o risco de perder o prazo de envio. As duas crescem a cada dia que a conta espera.
Dinheiro parado. O atendimento já foi pago pelo hospital, mas a cobrança não começou. No painel de indicadores de glosa da ANS, o tempo médio de pagamento é contado a partir do protocolo da cobrança, não da data do atendimento [6]. Os dias antes do envio não aparecem nos números da operadora, mas pesam no capital de giro do hospital.
Exemplo ilustrativo. Um hospital com receita bruta de convênios de R$ 300 mil por dia reduz o tempo médio entre alta e envio em 5 dias. O caixa recebe uma única vez cerca de R$ 1,5 milhão (5 × R$ 300 mil). A um custo de capital de 1% ao mês, esse valor parado custava perto de R$ 15 mil por mês. O cálculo com a taxa do próprio hospital está no guia Quanto custa o atraso da operadora.
Prazo de envio. A Lei 9.656/1998, art. 17-A, § 2º, II, exige que o contrato entre operadora e prestador traga os prazos e procedimentos para faturamento e pagamento [3]. A RN 503/2022, que regulamenta esses contratos, não fixa número de dias para o envio [4]. Cada contrato define o seu prazo.
Quando a conta sai depois desse prazo, a operadora pode glosá-la. A tabela 38 da TUSS tem códigos para esse caso. Entre eles estão o 3214, “cobrança fora do prazo estipulado no contrato com o prestador”, e o 3161, “prazo de envio fora do período contratual acordado entre as partes” [5]. O Manual de contratualização da Anahp registra que a prescrição da conta por envio tardio “tem sido considerada ilegal pelo Poder Judiciário” [9]. É a posição da associação; na prática, o caminho mais seguro é enviar dentro do prazo.
Práticas para fechar a conta mais rápido
Fechar a conta mais rápido é tirar as pendências do caminho antes da alta e dar dono a cada uma depois dela. As práticas abaixo atacam os dois trechos e podem começar sem trocar de sistema:
- Conta construída durante a internação. A auditoria concorrente confere a conta enquanto o paciente está no hospital, e a alta chega com menos pendências abertas. Veja o guia Tipos de auditoria.
- Checklist de alta. Antes de o paciente sair, a unidade confere relatório de alta, prescrições checadas, descrição cirúrgica e registro de OPME.
- Fila diária por idade e valor. A coordenação recebe todos os dias a lista de contas com alta não enviadas, com data da alta, operadora, valor, trecho e motivo da pendência.
- Prazo interno por trecho. O hospital define quantos dias cada área tem para responder à sua pendência. O prazo vem da própria série e do prazo contratual de envio, não de uma referência externa.
- Calendário de envio por operadora. Uma tabela com a data de corte, a periodicidade do lote e o prazo contratual de cada operadora evita que contas fechadas esperem o próximo ciclo sem necessidade.
- Validação do XML antes do lote. Críticas resolvidas antes da transmissão evitam rejeição e reenvio. O guia Lote XML TISS: erros de envio trata das críticas mais comuns.
Qual é um bom tempo entre alta e envio?
Não há referência pública. A página dos MAP Keys da HFMA não publica meta numérica para os indicadores de pré-faturamento [1], e no Brasil nenhuma fonte primária divulga média do setor para esse intervalo.
A referência possível é a do próprio hospital, com dois limites. O primeiro é o prazo contratual de envio de cada operadora: o prazo interno precisa deixar folga até ele. O segundo é a própria série: meça três meses, abra por trecho e por causa e defina uma meta de redução sobre a mediana.
O que vemos na operação
Na Accrua, o trecho entre a alta e o envio é o primeiro que medimos, porque é o único em que o relógio depende só do hospital. Quando lemos o histórico de um hospital, separamos os dois trechos que o guia descreve, da alta ao fechamento e do fechamento ao envio, e olhamos conta a conta onde os dias se acumulam: OPME sem nota ou etiqueta, prontuário incompleto, prorrogação pendente.
O Accrua OS trabalha sobre o HIS/ERP do hospital e acompanha cada conta aberta contra o prazo de envio previsto no contrato com aquela operadora. Os agentes cuidam do que tem regra: validação do XML, transmissão, acompanhamento de prazo e status. Quando falta um documento, a pendência vai para quem resolve, com a fonte indicada.
Na operação gerenciada, faturistas e auditores com formação em enfermagem tratam as contas paradas por causa, não por ordem de chegada. E, quando o problema é caixa, a Receita Garantida coloca no hospital, no prazo de que ele precisa, o valor da produção elegível.
Por onde começar
- Escreva a definição: quais datas marcam alta, fechamento e envio, e como tratar conta parcial, complementar e lote rejeitado.
- Calcule média e mediana das contas enviadas no último mês, separando os trechos alta → fechamento e fechamento → envio.
- Classifique as contas atrasadas por causa e nomeie um responsável e um prazo interno para cada uma.
- Monte o calendário de envio por operadora, com data de corte e prazo contratual.
- Acompanhe toda semana o indicador junto com o DNFB e defina a meta a partir dos três primeiros meses.